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O lead do meu coração
Paulo Pontes
Quem?
Helo.
Que?
Minha mulher.
Quando?
Precisa de um quando? Não sei bem. Talvez um ano, ou dois, ou sete, ou onze, ou 15, ou 25, ou 28 anos. Não quero, não posso, não preciso identificar o período. Não quero porque o importante é estarmos juntos em todos os momentos de nossas vidas; não posso porque datas são datas, apenas datas, nada mais do que datas; não preciso porque o dia é hoje, foi ontem e será amanhã.
Como?
Aí tenho que deixar a imaginação fluir. Talvez tenha sido durante um encontro profissional, onde a secretária olhou para o relações públicas, e como nos grandes romances, a paixão explodiu. Então os dois conversaram, saíram, se beijaram, se amaram e se distanciaram. Não, simples e vulgar demais para ser verdade. Quem sabe foi num encontro num supermercado, que tinha um shopping embaixo, uma conversa, alguns segredos trocados, e um romance curto, rápido, quase foguete. Não. Tão simples quanto o anterior. Talvez um telefonema, num dia se serviço, e do outro lado da linha a voz que pergunta: "você lembra de mim". E eu diria: "como esquecer". A outra voz: "mas faz 16 anos". Eu, então: "parece que foi ontem". Não, também parece contos de fadas, aquelas estórias juvenis que nossa idade não permite. Então um encontro casual num lugar onde nunca se imaginaria que isso poderia acontecer. Na realidade, um reencontro. Tantos anos depois. Conversas e mais conversas, identidades trocadas, afinidades também, dias, semanas, meses, anos se passaram e, então, aconteceu. É. Vamos deixar essa teoria como a mais viável.
Onde?
Ah! já é demais! Para responder esse ponto tenho que viajar por Osasco (que viagem é esta?), por pontos da cidade que eu poderia identificar como Anhembi, Sesi ou uma casa religiosa. Sei lá, até porque o "onde", para mim, também se perde dentro do "como". Mas vamos imaginar: o local, não importa o nome, é cercado de flores, num jardim com um gramado muito bem cuidado. E lá desfilamos conversando, conversando. Ou, quem sabe, num teatro, onde ela estava toda de branco, me lembrando uma princesa.
Por que?
Porque o amor se fez presente, os sentimentos se uniram, as necessidades se viram contempladas. Porque um completava o outro, porque os problemas eram os mesmos e os anseios também. Porque tudo na vida vale a pena, quando se quer e se sabe que pode querer...e fazer. Porque, por obra do destino, no dia 17 de agosto se comemora o Dia do Amor. E eu te amo, Te.
27/07/2010
Apologia ao pum
Paulo Pontes
Quem é que nunca soltou um pum na sua vida? Aposto tudo o que tiver, de olhos fechados, que você, seja quem for, que estiver lendo esta crônica vai responder que já soltou. Um, não. Muitos.
A ideia desta crônica é defender com unhas e dentes o direito sagrado que todos nós temos de soltar um pum, sem nos importar com o lugar e a hora em que ele vai sair. É claro que isso deve ser feito discretamente, procurando estar atento à direção do vento e evitando o local público, quero dizer, de maneira privada (não na privada).
O pum é um protesto do intestino contra os alimentos tóxicos que consumimos todos os dias e que vão parar diretamente no nosso intestino. Dependendo da regularização do intestino no trato da alimentação, eles produzem odores que podem deteriorar o ambiente, mas se estiver bem equilibrado vai produzir alguns puns com pouquíssimo odor, desde que os soltemos diariamen te.
Já fiz uma análise profunda dos puns que produzo diariamente e constatei, até em conversas com amigos que também os soltam, que quanto mais barulhento for o pum, menos cheiroso ele tende a ser; na mão contrária, quanto mais silencioso, mais vai derrubar quem estiver por perto.
Você já fez esta experiência? Pois então tente. Procure estar num lugar fechado, de preferência sozinho, e solte um pum daqueles que até o jornaleiro lá da esquina vai ouvir. Você quase não sentirá cheiro. Depois solte um sem barulho algum, do tipo "puf". E tampe o nariz que você não vai aguentar.
A sociedade nos reprime no sagrado direito de soltar puns. Mas o brasileiro, que dá um jeitinho para tudo, não se incomoda. Basta estar num grupo de pelo menos três pessoas para soltar sem se intimidar. Afinal, em três, sempre vai pairar a dúvida sobre quem foi que soltou. O responsável pela potente arma gaseificada não será diretamente acusado p elo odor.
Em casa, por exemplo, no meio da família, costuma-se respeitar os presentes, principalmente na mesa, na hora das refeições. É aconselhável ir ao banheiro discretamente e descarregar aquele monte de puns armazenado durante todo um dia.
Também é prudente evitar soltar os puns, barulhentos ou não, no leito, ao lado da esposa. Ela pode querer se vingar e a vítima poderá ser você. Até porque nós suportamos o odor dos nossos puns, mas não aguentamos o dos outros (que sempre é mais cheiroso que o nosso). Imagine, então, você no quarto, ao lado da mulher, soltando puns e ela, para se vingar, jogando gás intestinal pelo ar como você. Vai ser difícil permanecer no recinto.
Outro lugar onde é preciso tomar algumas provicências antes de soltar um rojão é no carro. Os carros de hoje vem, em geral, equipados com ar condicionado. Então você nunca deve soltar um pum quando o ar estiver ligado. O cheiro será inevitavelmen te espalhado por todos os pontos do veículo. A alternativa é abrir a janela, independente da temperatura e das condições atmosféricas externas. E se alguém reclamar, no tipo "tá frio", se faça de desentendido e diga que é apenas para mudar o ar circulante do carro.
No cinema ou no teatro você pode soltar puns a vontade. Como o lugar é de grande aglomeração, todos serão suspeitos do disparo e você nunca será incriminado sozinho. Levará consigo outros tantos que, com quase certeza, também soltaram seus puns.
Mas um detalhe é muito importante: disfarce o máximo que puder. Faça um barulho com o pé, ou com a boca, como se estivesse tirando pigarro da garganta. Sua fisionomia pode te incriminar. Não olhe para os lados nem para baixo. Na verdade, continue olhando fixamente para onde estava antes de soltar o pum e, se for o caso, ainda comente: alguém peidou por aqui. E complete: tem gente que não se toca.
E saiba: o pum pode se tornar uma arma poderosa para você se vingar de uma pessoa que está te enchendo o saco. Faça como eu fiz outro dia, lá na chácara. Estava virando a pizza no forno à lenha e minha sogra sentada no banco na cabeceira da mesa. Eu em pé e ela sentada. A direção da metralhadora estava voltada exatamente para seu rosto, numa distância máxima de um metro. Não tive dúvida: me virei no forno à lenha mexendo a pizza e soltei um daqueles inesquecíveis. Ele foi direto no nariz dela, sem dó nem piedade. Depois disfarcei e fiquei por um ou dois minutos virado de frente para o forno, de costas para ela e todos que estavam na mesa. Então saí como se nada tivesse acontecido.
Mas cuidado: meus cunhados estavam juntos e podem ter contado a ela meu ato. E eu nem vou ter o que fazer para me defender, até porque eu estava do lado oeste e eles do lado leste. Como minha sogra, que estava no centro, não é surda, ouviu bem de que lado o ppprrrruuuuuuuuuuuuummmmm s aiu.
Ui! que cheiro!
16/07/2010
O porteiro do Prostíbulo
Paulo Pontes
Diariamente recebo centenas de e-mails com os mais diversos assuntos. Eles vão desde o aspecto profissional, com releases de assessorias de imprensa, até os filminhos de sacanagens. Afinal, ninguém é perfeito.
Mas neste dias recebi um texto muito interessante, que me fez refletir bastante sobre ele. É uma estória de um cidadão que era porteiro de um prostíbulo. E não havia, no povoado que ele habitava, pior ofício do que exercer essa profissão. Mas era a única coisa que ele sabia fazer. Afinal, não tinha aprendido a ler nem a escrever, e era a única profissão que aprendera e exercera.
Um dia entrou como gerente do prostíbulo um jovem cheio de ideias, criativo e empreendedor, que decidiu modernizar o estabelecimento. Fez mudanças, reciclou as moçoilas, trocou a decoração, os móveis dos quartos, chamou os funcionários para as novas instruções. Ao porteiro disse que a partir daquele dia ele, além de ficar na portaria, teria que preparar um relatório semanal onde registraria a quantidade de pessoas que entram, além de seus comentários e reclamações sobre os serviços.
O porteiro, bastante abalado, disse que adoraria fazer o serviço, mas, balbuciando palavras com tremor e tom baixo, falou que não sabia ler nem escrever.
O novo gerente disse que sentia muito, mas que sendo assim ele já não poderia mais seguir trabalhando no prostíbulo. Então segui-se o diálogo:
- Mas senhor, não pode me despedir, eu trabalhei nisto a minha vida inteira, não sei fazer outra coisa.
- Olha, eu compreendo, mas não posso fazer nada pelo senhor. Vamos dar-lhe uma boa indenização e espero que encontre algo que fazer. Eu sinto muito e que o senhor tenha boa sorte.
Sem mais nem menos, deu meia volta e foi embora. O porteiro sentiu como se o mundo desmoronasse sobre sua cabeça. Que fazer? Lembrou que no prostíbulo, quando quebrava alguma cadeira, mesa ou cama, ele arrumava com cuidado e carinho. Pensou que esta poderia ser uma boa ocupação até conseguir um emprego. Mas só contava com alguns pregos enferrujados e um alicate mal conservado. Usaria o dinheiro da indenização para comprar uma caixa de ferramentas completa.
Como o povoado não tinha casas de ferragens, deveria viajar dois dias em uma mula para ir ao povoado mais próximo para realizar a compra. E assim o fez. No seu regresso, um vizinho bateu à sua porta:
- Venho perguntar se você tem um martelo para me emprestar.
- Sim, acabo de comprá-lo, mas eu preciso dele para trabalhar, já que...
- Bom, mas eu o devolverei amanhã bem cedo.
- Se é assim, está bom.
Na manhã seguinte, como havia prometido, o vizinho bateu à porta e disse:
- Olha, eu ainda preciso do martelo. Por que você não o vende para mim?
- Não, eu preciso dele para trabalhar, e além do mais, a casa de ferragens mais próxima está a dois dias de viagem sobre a mula.
- Façamos um trato – disse o vizinho -. Eu pagarei os dias de ida e volta, mais o preço do martelo, já que você está sem trabalho no momento. Que lhe parece?
Realmente, isso lhe daria trabalho por mais dois dias. Aceitou. Voltou a montar na sua mula e viajou. No seu regresso, outro vizinho o esperava na porta de sua casa.
- Olá, vizinho. Você vendeu um martelo a nosso amigo. Eu necessito de algumas ferramentas, estou disposto a pagar-lhe seus dias de viagem, mais um pequeno lucro para que você as compre para mim, pois não disponho de tempo para viajar e fazer as compras. Que lhe parece?
O ex-porteiro abriu sua caixa de ferramentas e seu vizinho escolheu um alicate, uma chave de fenda, um martelo e uma talhadeira. Pagou e foi embora. E nosso amigo guardou as palavras que escutara: “não disponho de tempo para viajar e fazer compras”.
Se isso fosse certo, muita gente poderia necessitar que ele viajasse para trazer as ferramentas. Na viagem seguinte arriscou um pouco mais de dinheiro trazendo mais ferramentas do que as que havia vendido. De fato poderia economizar algum tempo em viagens.
A notícia começou a se espalhar pelo povoado e muitos, querendo economizar a viagem faziam encomendas. Agora, como vendedor de ferramentas, uma vez por semana viajava e trazia o que precisavam seu clientes.
Com o tempo, alugou um galpão para estocar as ferramentas. Alguns meses depois comprou uma vitrine e um balcão, transformando o galpão na primeira loja de ferragens do povoado.
Todos estava contentes e compravam dele. Já não viajava, os fabricantes lhe enviavam seus pedidos. Ele era um bom cliente.
Com o tempo, as pessoas dos povoados vizinhos preferiam comprar na sua loja de ferragens do que gastar dias em viagens.
Um dia ele lembrou de um amigo que era torneiro e ferreiro. Pensou que ele poderia fabricar as cabeças dos martelos. E logo, por que não?, as chaves de fendas, os alicates, as talhadeiras...E depois foram os pregos, os parafusos...
Em poucos anos nosso amigo se transformou, com seu trabalho, em um rico e próspero fabricante de ferramentas. Chegou ao ponto de doar uma escola ao povoado. Nela, além de ler e escrever, as crianças aprenderiam algum ofício.
No dia da inauguração da escola, o prefeito lhe entregou as chaves da cidade, o abraçou e disse:
- É com orgulho e gratidão que lhe pedimos que nos conceda a honra de colocar sua assinatura na primeira página do livro de atas desta nova escola.
- A honra seria minha – disse o homem. Seria a coisa que mais me daria prazer: assinar o livro. Mas eu não sei ler nem escrever, sou analfabeto.
- O senhor??? Disse o prefeito, sem acreditar. O senhor construiu um império industrial sem saber ler nem escrever? Estou abismado. Eu pergunto: o que teria sido do senhor se soubesse ler e escrever?
- Isso eu posso responder – disse o homem com calma -. Se eu soubesse ler e escrever ainda seria o porteiro do prostíbulo.
Por que resumi esta estória para vocês, meus leitores? Porque extraí dela a mensagem de que as mudanças, geralmente, são vistas como adversidades. As adversidades podem ser bençãos. As crises estão cheias de oportunidades. E nós temos o defeito grave de, na maioria das vezes, não enxergarmos que isso ocorre diariamente com nossas vidas.
Se alguém lhe bloquear a porta, não gaste energia com o confronto. Procure as janelas, como faz a água que nunca discute com seus obstáculos, mas os contorna.
Não importa aqui qual religião recebe a sua fé. O que importa é que todos nós temos uma missão a cumprir. Seja como porteiro de um prostíbulo, seja como um médico. O importante é ter responsabilidade no desempenho de sua missão.
05/07/2010
Solidão, costela e outras mais
Paulo Pontes
O que é viver na solidão? Na mais simples das explicações, é morar sozinho, não ter amigos, parentes, família. É, como dizem os ingleses, ser "only own". Entretanto, você pode ter tudo isso, mas viver na solidão. Vai de cada um.
Isso não é legal. Cansa, maltrata, te faz ficar de mau-humor, acaba com seu dia. Você está num lugar, cercado de amigos, e sente-se sozinho. Pior: você está em casa, ladeado pela família, mas nutre um vazio profundo como se só as paredes estivessem à sua volta.
Aí começa a remoer ideias que não acrescentam em nada na sua vida. Vê uma cena e lembra da música de Chico Buarque, quando fala da Geny: "ao deitar com homem tão nobre, tão cheirando a brio e a cobre, preferiu amar com os bichos".
Travesti eu? De jeito nenhum. Não sou homofóbico, mas não admito tal existência. A letra desta música? Mera lembrança, puro acaso. Talvez uma situação, uma circunstância, nada mais que isso. Ou, como dizem os novelistas, qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência.
Talvez este meu estado de espírito é por ser segunda-feira. Geralmente é um dia que causa irritação, afinal o final de semana é sempre recheado de coisas boas. Que coisas? Um estrago só. Querem um exemplo?
Pois bem, há 20 dias comprei uma costela defunada embalada a vácuo, cerca de 2 quilos, que deveria ser conservdo em local seco e arejado, com validade de três meses. Tinha acabado de ser fabricada.
Levei como um troféu para minha casa. Procurei o lugar certo para ela e pendurei sobre o freezer, junto com um salame (também fechado). Durante esse tempo cultuei minha nova decoração, pensando como iria fazê-la e formatando seu sabor. Domingão, sem jogo de futebol (maldita Copa do Mundo) decidi fazer a tal costelinha. Comprei o paio, o feijão branco e pedi à minha mulher que cozinhasse tudo e preparasse a polenta.
Meus queridos leitores, secaram minha costelinha. Quando ela foi aberta exalou um cheio podre como há muito não sentia.
Decepção total! Aquilo que comi com os olhos durante 20 dias não pude colocar na boca. E ela foi devidamente parar na lata do lixo.
Então vocês deve estar me questionando: o que tem a ver a solidão com a costelinha estragada? Nada, abolutamente nada, eu respondo. Mas ambos os fatos, por mais distantes que estejam, podem ter sido vividos num único final de semana e descarregam na segunda-feira.
Ôpa! pera aí! tem algo de bom nesta semana. Sexta-feira (ufa!) é feriado e tudo indica que eu vou folgar. Então posso planejar uma ida para a chácara para o verdadeiro descanso. Lá não há solidão. É impossível ficar só. Lá os pássaros vem cantar a todo instante. As corujas fazem a ronda noturna e as plantações colorem a verde natureza.
Lá a terra tem cheiro de esterco. Mas certamente é mais pura do que o chão encerado e encarpetado que pisamos por aqui. Lá o céu é límpido, não sabendo o que é poluição de fábricas e automóveis. Lá eu posso pescar no rio Piracicaba ou no Tietê. Aqui o Tietê fede. Culpa de quem? do homem que não tem a menor educação, apesar de ter mestrado e doutourado. Não são assim os engravatados?
Lá o limão tem mais caldo, a laranja é mais amarela, a rúcula mais verde. Não tem agrotóxico. Não tem veneno. Lá tem o forno à lenha para assar a pizza e o pernil, tem o Grill para girar a carne na churrasqueira, enquanto posso ler Millor eoutros tantos. Lá posso, enfim, descansar e curtir a natureza.
O problema é que estou aqui, cercado dos engravatados. Eu também sou engravatado. Acho que é isso. A solidão bate aqui. A gravata me enforca e não me deixa olhar para o lado. Não tem nem uma vuvuzela tocando na avenida Paulista. Apenas a orquestra sinfônica dos carros e ônibus.
Bah! Chega de xurumelas. O negócio é suportar. Afinal, nós escolhemos nosso caminho. Então não ha por quê reclamar!
09/06/2010
Copa do Mundo
Paulo Pontes
E assim começamos a viver outra Copa do Mundo. Agora na África do Sul. Mas cadê o clima de Copa? Desculpem meus leitores, mas tenho que recorrer às reminiscências.
Ficou gravada em minha mente a Copa de 1970. Eram 90 milhões em ação gritando "prá frente Brasil", na ufania que o regime militar, devidamente comandado pelo presidente Emílio Garrastazu Médici (que Deus o tenha!) nos fazia cantar e acreditar que aquilo era a coisa mais importante de nossas vidas. Afinal, enquanto comemorávamos os gols de Pelé e Tostão, os milicos comemoravam mais alguns "comunistas" mortos pelos esquadrões da morte do delegado Fleury.
Mas, falando em Copa, aquele me marcou por demais por ser a primeira transmitida ao vivo pela TV e por eu estar, à época, com 11 para 12 anos e já naquele tempo gostar muito de futebol. E vamos concordar: uma Seleção que tinha Pelé, Gerson, Rivelino, Tostão, Jairzinho e outros mais, só podia dar orgulho. Me lembro a escalação exata: Felix; Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo, Gerson e Pelé; Jairzinho, Tosão e Rivelino.
A Seleção do Zagalo trouxe o tricampeonato mundial para o Brasil e nos fez ficar de posse quase definitiva da Taça Jules Rimet. Eu disse "quase" porque ela, misteriosamente, foi roubada do cofre de segurança máxima da CBF, derretida e seu ouro vendido nas esquinas do País. Se você comprou ouro na época do roubo, deve ter guardado, em sua casa, um pedacinho da taça que a Seleção conquistou no México.
Depois desta copa vieram outras que sempre me emocionaram. A de 82, por exemplo, o maior time que o Brasil montou depois de 70, e que deu um verdadeiro show no México. Waldir Perez; Leandro, Oscar, Luizinho e Junior; Falcão, Sócrates e Zico; Paulo Isidoro, Serginho e Eder. Mestre Telê Santana como técnico. Não fosse o acaso, com aquele fatídico dia onde tudo deu certo para Paolo Rossi e tudo errado para Toninho Cerezzo, e seríamos os campeões do mundo.
O clima de Copa no Brasil sempre é muito gostoso. As ruas ficam pintadas em verde e amarelo, as bandeiras se espalham ao longo das casas e prédios, as pessoas colocam a camisa amarela, penduram bandeirolas e sentem orgulho de serem brasileiras. Por todos os cantos, nos bares, nas baladas, nas festinhas, o assunto é futebol. É o Brasil. Ninguém, mas ninguém mesmo fica alheio aos jogos do Brasil. A não ser aqueles céticos que acham que o melhor do Carnaval se encontra num retiro espiritual. Afinal, cada um é cada um.
Mas este ano especificamente estou sentindo o clima de Copa meio distante. Talvez tenha que fazer uma mea culpa. Eu mesmo torço muito mais para o São Paulo do que para a Seleção. Estou mais preocupado com o jogo do dia 28 de julho, contra o Internacional pela Libertadores, do que o de terça-feira, dia 15 de junho, contra a Coréia do Norte pela Copa do Mundo.
Mas tenho que reconhecer que adoro Copa do Mundo. Assisto todos (eu disse todos) os jogos. Pode ser até um do Japão contra Gana. Não importa. É jogo de Copa, eu estou assistindo. Só que não estou vendo nas ruas este clima. As bandeiras não estão penduradas, os pintores do asfalto ainda não apareceram, a cidade não parou para discutir futebol.
Provavelmente a explicação mais plausível esteja no fato de que a Seleção Brasileira é formada por estrangeiros. Se ganhar, os jogadores comemorarão lá na Europa. Se perderem, ficarão longe das nossas vaias. A Seleção Brasileira não pertence mais ao torcedor brasileiro. Neste mundo globalizado, ela também multiplicou suas nacionalidades. E hoje pertence ao planeta Terra.
E tem mais: esta Seleção Brasileira não tem charme, não tem emoção. É pragmática. Imagem perfeita do seu treinador. Ou Dunga não comandou a era dos Dinossauros Canarinhos?
Enfim vou torcer. Sou Brasileiro com muito orgulho, com muito amor. Vou tentar enxergar, além da amarelinha, um fundo branco com listas horizontais vermelha e preta. E o grito de gol será bem alto, para todo o mundo ouvir.
Vamos atrás do Hexa, Brasil!
04/06/2010 A minha Pompeia
Paulo Pontes
Hoje, durante a edição do Jornal da Manhã, ouvi uma reclamação de um ouvinte sobre algo que estava acontecendo de errado na rua Desembargador Vale, na Pompeia. Nem me lembro bem o tema. Me gravou na cabeça apenas a rua Desembargador Vale. Ou melhor: a Pompeia.
Quem é que não tem um bairro do coração? Quem é que não tem uma rua para guardar suas memórias, ainda que de infância.
Pois eu tenho. Afinal, por 21 anos fui morador da Vila Pompeia, na zona Oeste da cidade. E morei em uma rua e uma avenida: rua Piracuama, 407, apartamento 07, e avenida Professor Alfonso Bovero, 1306, fone 62-4771. É, nos tempos que os telefones em São Paulo eram compostos por seis números. Hoje são oito e estamos a caminho dos nove. Aliás, no celular serão 10 a partir de janeiro.
Foi uma parte marcante da minha vida. Foi toda uma infância, adolescência e o começo da juventude neste bairro. Então as lembraças c omeçaram a bater em minha mente. Indispensável dizer que as figuras de meu vovô Quinzinho, vovó Luizinha, mamãe Daicy (todos habitantes do Céu) e do papai Antonio (ainda hoje ao meu lado), retumbaram meu coração.
Lembro-me dos amigos do futebol, da bicicleta e dos jogos de botão. Cláudio, Luiz, Pedrinho, Nunes, Ragueb, Mingo, Carlinhos, Ezequiel, Pezão, Russo, Selma (a primeira namorada). Depois vieram o Omar (até hoje muito ligado comigo), o Samaritano.
Todos os sábados tinha compromisso com meus pais: feira e supermercado. Naquela época, nos anos 60, ainda não existiam os hipermercados. Eram vendas, mercearias e os primeiros supermercados surgindo.
A feira era na rua Barão do Bananal. Quando passávamos na última barraca, a de peixes, meu pai me comprava um pastel e, no bar da esquina, eu tomava uma Tubaina.
Depois subíamos a ladeira da avenida Pompéia, chegávamos em casa, guardávamos as compras e íamos ao Pão de Açucar, a pr imeira rede de supermercados da cidade. Ficava pertinho de casa, a um quarteirão. Era a evolução que começava a surgir no ramo de comestíveis.
Mas, como eu disse, antes existiam as vendas, as mercearias. Lembro-me do seu Túlio, que tinha uma venda embaixo do apartamento em que eu morava na rua Piracuama. E dá para esquecer a paçoquinhas? as goiabinhas? os canudinhos? os pés-de-moleques?
E o sorvete que hoje chamam de "abelhinha", no bar do seu Toninho, na esquina da Alfonso Bovero com a Cotoxó? Imperdível. Os sonhos da Padaria Salazar, ou da Pompeia Chic. Os pastéis que o pai do Pedrinho fazia, acompanhados de um delicioso caldo-de-cana. A pizza na cantina Fratelli Rossi, nas noites de domingo.
O melhor: eram vendinhas e lojinhas que podíamos entrar com a certeza de que seríamos bem atendidos. E os donos sabiam os nomes de todos, inclusive o meu.
A Igreja São Camilo, na avenida Pompeia. Tinha o padre Clemente, com quem eu não i a muito com a cara, e o padre Afonso, esse sim muito gente boa. O Liceu Tiradentes, em frente a minha casa. Tinha o guarda, seu Antonio, que atravessava os alunos, já que naquela época eram poucos os semáforos. Depois virou Faria Lima e eu fui estudar nesta escola. Estadual, é claro.
Entretando, o crescimento desembestado dessa São Paulo fez com que sumissem as vilas, até mesmo a Vila Pompeia. Muitos prédios foram construidos. O comércio tomou conta e as casas sumiram da Alfonso Bovero. Nas transversais e paralelas elas ainda existem e mantém o quadro tradicional do bairro dos anos 60. Tão igual que nem garagem elas tem.
Em outras palavras, a outrora Vila, hoje só Pompeia, virou um bairro comum. Mas, quando passo em frente ao número 1.306 da Alfonso Bovero viajo para o passado e vejo em meu pensamento as imagens de quando eu era criança. E reafirmo em meu coração que apesar de morar há muitos anos na região de Pirituba, da Pompeia não esquecerei jamais.
25/05/2010 Reflexão sem preconceito
Paulo Pontes
Ando meio acabrunhado ultimamente. Não sei bem a razão. Tenho até falado, através do Twitter, de reflexões que tenho feito sobre a vida. Em todos os sentidos. Não excluo aqui nenhum tema.
Um, no entanto, tem me abalado bastante. E fala sobre preconceito. Não aquele que está dentro de mim, e que não tenho medido esforços para combatê-lo, que é a homofobia (acho que melhore 10 mil por cento do que eu era), mas daquele que está incrustado no íntimo da sociedade paulista.
Pensei que passados oito anos de mandato do presidente Luis Inácio Lula da Silva esse sentimento idiota dos "ditos" intelectuais, fosse acabar. Ainda mais com os 83% de aprovação pessoal que ele tem. Mas não. Lêdo engano. O que continuo vendo e ouvindo é a análise feroz sobre o semianalfabetismo de nosso presidente, a falta do dedo mindinho em sua mão e outras aberrações.
Esses pseudo-intelectuais não aceitam a absoluta certidão de que Lula colocou o Brasil no c entro das discussões mundiais e que sua incursão sobre o Irã, na tentativa de firmar um acordo para o urânio produzido naquele País, teve como objetivos a paz, princípio básico da Constituição Brasileira, mas também elevar o nome do Brasil ao de um País conciliador e voz ativa nas questões do mundo.
O próprio Lula disse: "Falam que o Brasil não tinha que se meter lá. Mas o Estados Unidos tinham o direito de se meter lá também?" É exatamente isso. Se o Brasil quer ser um País grande e ouvido nas grandes questões do mundo, tem que estar presente em todas as discussões.
Mas não estou escrevendo esta crônica para defender o governo Lula. Na realidade, quero abordar o preconceito. Que não é só de sexo, ou de religião, ou de raça, ou de classe social. Mas por que em São Paulo a grande maioria tem algum tipo de preconceito? Sou paulista, nascido em Santo André, e confessei aqui um preconceito que tenho, sendo homofóbico, mas consciente de tal estou tentando melhorar.
O problema é que nossa sociedade, sempre andando de nariz empinado, não consegue olhar para baixo e ver o chão que está pisando. Se esconde nos nababescos saraus, ou vernissages e acham que estão por cima da carne seca. Não estão. São pobres coitados. Ricos em dinheiro, miseráveis em espírito.
Talvez eu esteja ficando velho. Como disse no início, tenho feito diversas reflexões nos últimos dias. E repito: não excluo qualquer tema. Mas um deles é a aposentadoria. Palavra tão distante, há alguns anos, mas que hoje começa a bater em minha cabeça. E quando olho para a frente vejo que em seis anos poderei estar aposentado. Velho, eu??? Não. Ao contrário, me sinto muito jovem. Para tudo. Tudo mesmo. E não há aqui qualquer preconceito quando a idade de quem quer que seja.
A vida é uma eterna reflexão. Pena que alguns só começam a fazê-la quando já não há mais tempo para isso. Ou quando já se perdeu o que tinha por não entender a situação no momento em que se vivia determinada fase da vida. E isso vale para emprego, para amizades, para a vida familiar, para os negócios, enfim, para tudo.
Longe de querer pedir voto para qualquer candidato aqui, só espero que meu leitor reflita bem neste ano de elições. Não são só presidente e governador em quem vamos votar, mas em deputados e senadores. Será importante demais analisar bem, desde já, para não mandarmos de volta para Brasília aqueles que só pensam no seu próprio bem, esquecendo-se do povo.
Boa reflexão a todos, sem preconceitos, sem arrependimentos. 14/05/2010
Em 2030
Paulo Pontes Depois dos vinte, contemplar o futuro distante passou a ser mais freqüente. Eu e meus amigos batemos longos papos a respeito, tentando alcançar uma idéia de onde e como estaremos em 2030, por exemplo. Lá seremos senhores, alguns beirando os setenta anos de idade; outros já bem mais além. Até porque quando eu tinha 20, eu achava que aos 40 já seria velho. Aos 30, passei a achar que os de 50 é que eram velhos. Agora, com pouquinho mais de 50, acho que os velhos são os que têm mais de 70, beirando os 80.
Cada um de nós tem uma visão sobre os velhinhos que seremos, evitando com empenho (e ginástica, tênis, alimentação saudável etc, planos que nem sempre conseguimos seguir) a possibilidade de não estarmos auto-suficientes nessa época que chegará.
Pensar na velhice não é tão aquém da rotina daqueles que já passaram dos cinquenta. Muitos buscam cuidar com mais afinco da saúde, “pra ser um velhinho saudável”. Então, nossos pais questionam como será esse ‘o que virá' já que, mesmo com mais de 50, ainda somos crianças para nossos pais. Claro, afinal eles têm quase 80.
Entretanto o que mais desejamos, não só eu, mas creio que a maioria de nós, é ter alguém como aquele casal de velhinhos com o qual todos já cruzamos na rua; que apesar do tempo e, certamente, das discordâncias, das brigas calientes, tudo o que um relacionamento duradouro pode acarretar, conseguiram manter o carinho e o respeito. Conseguiram um equilíbrio que não sufoca o amor, não viola a amizade, não agride a cumplicidade.
Acredito que com setenta anos continuarei fazendo algumas coisas que faço com os pouquíssimos mais de cinquenta. Não vou deixar de caminhar, fazer esteira, jogar tênis, assistir aos jogos do São Paulo e dar carinho à minha mulher.
Vou estar fisicamente perfeito?
- Isso só Deus sabe.
Vou estar com clar eza de pensamento?
- Isso vai depender de meu estado físico.
- Vou estar sexualmente útil?
- Isso eu pretendo. Mas se não estiver, o azulzinho ajuda.
O que eu não quero é chegar nessa idade e curtir desgostos. Já bastam os que passamos por toda a nossa vida. Por culpa nossa mesmo. Afinal, plantamos o que colhemos. Mas quero ter pago, aos setenta, as dívidas que contraí durante toda a minha vida. Sei que já paguei e continuo pagando alguns contratos malfeitos. Espero que a quitação esteja próxima.
Parar de tomar cerveja, whisky e vinho? Nâo. Se Deus me permitir continuarei com esses prazeres, sempre MODERADAMENTE, SOCIALMENTE. Não faz mal a ninguém.
O que não quero é perder o amor. Ele vai continuar no meu coração. Sei que não somos românticos vendados. Na verdade, nossas almas receptivas e olhos abertos nos convencem de que prós e contras fazem parte da história de qualquer pessoa. Nin guém é perfeito. E amém!
Quero me tornar um senhor para brincar com meus netos. Afável, um pouco louco, pois a loucura é um ótimo ingrediente para as ousadias que, nascidas na maioridade dos desejos, podem nos levar às mais intensas experiências.
Ainda que em 2030.
07/04/2010
Ser jornalista
Paulo Pontes
Muita gente comemora o Dia da Imprensa, em 10 de setembro, como sendo o dia de todos aqueles que militam no jornalismo. Mas o dia correto para categoria é o 7 de abril. Foi nesta data, em 1908, que foi funda da a Associação Brasileira de Imprensa; nesta rua que se instalou o "Império" dos Diários Associados. Portanto, no Brasil, 7 de abril é considerado o Dia do Jornalista.
Nunca, que me lembre, escrevi uma crônica neste dia. Gosto de contar fatos que presencio, simular situações, fazer críticas políticas ou mesmo timidamente vagar pela literatura, porém muito longe de me julgar um simples aprendiz de grandes escritores.
Mas hoje resolvi falar de minha profissão. Diga-se de passagem, uma profissão sofrida, pouco reconhecida por muitos, em alguns momentos humilhada pelas autoridades, mas que tem orgulho de ter, um dia, derrubado um presidente da República e ser considerado parte do quarto poder.
Ser jornalista é saber persuadir, seduzir. É hipnotizar informando. É não ter medo de nada nem de ninguém. É aventurar-se no desconhecido, sem saber direito que caminho irá te levar. É desafiar o destino, zombar dos paradigmas e questionar os dogmas. É confiar desconfiando, é ter um pé sempre atrás e a pulga atrás da orelha. É abrir caminho sem pedir permissão, é desbravar mares nunca antes navegados. É nunca esmorecer diante do primeiro não. Nem do segundo, nem do terceiro... nem de nenhum. É saber a hora certa de abrir a boca, e também a hora de ficar calado. É ter o dom da palavra e do silêncio. É transformar uma simples caneta, ou um microfone, em uma arma letal. Ser jornalista não é desconhecer o perigo; é fazer dele um componente a mais para alcançar o objetivo. É estar no Quarto Poder, sabendo que ele pode ser mais importante do que todos os outros três juntos.
Ser jornalista é enfrentar reis, papas, pr esidentes, líderes, guerrilheiros, terroristas, e até outros jornalistas. É não baixar a cabeça para cara feia, dedo em riste, ameaça de morte. É um risco iminente, que pode surgir em infinitas situações. É o despertar do ódio e da compaixão. É coisa de doido. É olhar para a linha tênue entre o bom senso e a loucura e ultrapassar os limites sorrindo, sem pestanejar. É saber que entre um furo e outro de reportagem haverá muitas coisas no caminho.
Ser jornalista é ser meio metido a besta mesmo. É desnudar-se de pudores. Ética? Sempre. É manter a dignidade. É ser petulante, é ser agressivo. É fazer das tripas coração pra conseguir uma mísera declaraçãozinha. É apurar, pesquisar, confrontar, cruzar dados. É perseguir as respostas implacavelmente. É lidar com pressão, pressão de todos os lados. É saber que o inimigo de hoje pode ser o aliado de amanhã. E a recíproca é verdadeira. É matar um leão por dia, e ainda sair ileso . É ter o sexto sentido mais apurado do que os outros, e saber que é ele quem vai te tirar das enrascadas. Ou te colocar nelas.
Ser jornalista é saber um pouquinho de cada coisa. De medicina, direito, economia, política, esporte. É ser polivalente, mas humano. É ter a humildade de reconhecer o erro, e a altivez de pedir desculpas. Mas é, acima de tudo, uma opção de vida, da qual não abro mão. Por isso me uno aos milhares de jornalistas deste Brasil, para comemorarmos o nosso dia. 03/04/2010
Feliz Páscoa
Paulo Pontes
E chegamos na Páscoa. Motivo de alegria ou tristeza? Para os que gostam de chocolate, alegria. Para os que tem que comprar os ovos, muita tristeza.
O chocolate está custando os olhos da cara. E o bacalhau, então? Está pela hora da morte. Aliás, são duas expressões que me intrigam muito. O que é custar os olhos da cara? O que é estar pela hora da morte? Alguém sabe que hora é esta?
Bem, voltando à Páscoa, foi o tempo em que as famílias tomavam esta data com a mesma importância do Natal. A única diferença era que os presentes se limitavam aos ovos de chocolate. Mas o almoço era uma tradição de famílias. Não se admitia que o domingo de Páscoa não tivesse pompa e união.
Hoje, com a proliferação das religiões, a data ficou circunscrita aos católicos. A Igreja comemora, na Páscoa, a ressurreição do Senhor, no terceiro dia após a sua morte. Jesus foi o Redentor que veio ao mun do para salvar a humanidade dos pecados.
Nesse período cristão, me lembro de uma passagem que nem tem nada a ver com isso, a não ser pelo animal correspondente: o coelho. Na minha infância, quando morava num apartamento da rua Piracuama, na Pompéia, fui presenteado com um coelhinho. Branco, gostava de correr pelo apartamento. Eu, com pouco mais de cinco anos de idade, passava o dia a correr atrás dele.
Um belo dia o coelhinho desapareceu. Meus pais falaram que ele fugiu. Chorei muito. Meu amiguinho tinha ido embora. O vazio ficou naquele apartamento.
No dia seguinte, qual foi a mistura do almoço? Coelho. Lógico que nem de longe eu imaginaria que estava saboreando meu amiguinho. Passaram-se os anos e meus pais, então, me contaram a verdade: o seu Túlio, que tinha uma venda embaixo do prédio, matou o pobre bichinho e ele virou mistura para um domingo de Páscoa.
Algumas tradições da Páscoa já não carrego mais comigo. Nem é por não querer, mas pelas ciscunstâncias. Eu lembro que meus avós, depois meus pais, tinham por tradição correr as Sete Igrejas na Sexta-Feira Santa. Era como se refizessem a caminhada do Cristo e Suas sete quedas. Lembro-me que íamos de carro até a Igreja da Consolação e de lá partíamos para a Igreja dos Carmos, a Catedral, a Igreja de Santo Antonio, a de São Francisco, a dos Carmelitas e o Mosteiro de São Bento. Na volta para casa tinha um suculento bacalhau, regado a azeite português, bom batatas, pimentão, cebola e ovos cozidos.
No sábado saía para malhar o Judas, sempre amarrado a um poste. Um dia peguei uma calça "rancheiro" (os menos jovens sabem o que significa isso) rasgada do meu avô, uma camisa de flanela velha, enchia de jornal e ia bater no boneco até ele ficar esfacelado.
No domingo de Páscoa, ovos de chocolate e um almoço em família. Depois, já com meus filhos, costumava esconder os ovos nas árvores de nossa chácara. Os ninhos eram previamen te preparados pelo caseiro, ou por nós mesmos, e, pouco depois das 8 da manhã eles saíam procurando os ovos olhando árvore por árvore.
Hoje não corro mais as Sete Igrejas. Aliás, geralmente estou de plantão neste feriado, como estive neste ano; também não malho mais o Judas. Não ficaria bem um cara com 51 anos (boa ideia) na cara ficar batendo em boneco de pano; também não escondo mais os ovos nas árvores. Afinal, meus filhos já têm mais de 23 anos e um deles, o André, vai até casar (estou velho, definitivamente).
Sinto saudades destas tradições. Outra que me esqueci: na Sexta-feira Santa eu acompanhava a procissão. Vela acesa na mão, protegida por um encartado de cartolina, e missa no final do percurso, com o corpo de Jesus presente.
Eu posso dizer que curti muito a Páscoa. E continuo curtindo. Se não posso mais fazer as coisas que fazia, dou graças ao bom Deus que me permite ter condições de comprar os ovos de chocolate para minha família. E de fazê-los entender que, independente de crença religiosa, devemos comemorar o renascimento de Jesus. Mais do que isso, comemorar a própria fé que temos em Sua existência.
Por isso, com ou sem ovinhos de chocolate, com ou sem azeite e bacalhau, que a comemoração Pascal esteja em cada um de nós. Que seja um rito de passagem para um tempo novo, revigorado, valorizando a vida e as relações legitimamente fraternas, preparando-nos para um renascer interior, de crença numa humanidade melhor e verdadeiramente justa.
Feliz Páscoa a todos os meus amigos e leitores.
06/12/2009
Por que é assim?
Paulo Pontes
Sabe, "tem dia que a gente se sente como quem partiu ou morreu", como disse um dia Chico Buarque de Holanda ao compor a maravilhosa "Roda Viva", defendida num Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record, nos anos 60, interpretada pelo ótimo MPB4.
Mas não estou escrevendo para falar da música, e sim do trecho que me levou a este sentimento. E não sei porque isso está acontecendo hoje. Não há motivo. Não, garanto, não vejo motivo.
Talvez seja a época do ano. Natal, festas, Ano Novo, reunião de família, abraços de amigos. Tudo muito bom, muito gostoso, mas para mim falta alguma coisa.
Hoje, aqui na avenida Paulsita, redação da Jovem Pan, sabadão de plantão, abri minha caixa de e-mails e vi um que um amigo, o Freitas, me mandou. Traz um link para um site que guarda uma infinidade de músicas, dos mais variados gêneros.
Com toda a calma do mundo comecei a ouvir algumas melodias. Voltei ao passado. E muito. Imaginem que fui buscar Cely Campelo cantando seu Banho de Lua; Earl Grant com o The End, que também, como o próprio nome da música diz, marcou o fim da sua carreira e sua vida; Rita Pavone, Frank Sinatra, The Monkees e tantos outros.
Enfim, viajei. E nessa viagem, ainda que acordado, olhos bem abertos e consciente que estava no meio da Redação, fui procurar minha mãe. A eterna busca e procura. A eterna saudade.
Eu sei muito bem que não tenho o direito de pedir a sua presença. Aprendi na doutrina espírita, da qual faço parte, que não podemos atrapalhar a evolução daqueles que já nos deixaram e estão do lado de lá. Mas ninguém, nem a própria doutrina, pode me proibir de sentir saudade.
E hoje tá um dia assim, daqueles. Não é seu aniversário (nem de morte, nem de vida); não é meu aniversário. É o da minha tia, sua única irmã. Mas nem é por isso. Só sei que estou sentindo um grande vazio por dentro, uma impressão de que a vida tornou-se nada sem a presença da minha mãe. E já faz 12 anos que ela desencarnou. Eu deveria ter me acostumado com a ideia.
Juro que tentei e continuo tentando. Mas a mamãe Daicy é uma pessoa extremamente presente no meu pensamento e no meu coração. Ao mesmo tempo eu rezo para não atrapalhar sua caminhada. Por isso não a estou chamando aqui. Estou aproveitando que tenho esse espaço para desabafar, e que tenho você, que dedica alguns minutos em meu site, para me ler.
Ouvindo essas músicas eu voltei à minha infância. Lembrei das coisas que ela me fazia. Eu era o Paulinho, primeiro filho, primeiro neto, primeiro bisneto, primeiro sobrinho. Era tudo muito bom.
Por que é que a gente cresce, fica gente grande e deixa de ser criança? Quando eu era pequenininho queria ser gente grande. Minha mãe falava que eu tinha que aproveitar meus tempos de criança, porque eles não volatavam mais. Eu não daria qualquer coisa para voltar a ser criança, mas o faria para ter minha mãe comigo.
Sei que estou reclamando de barriga cheia. Tenho uma vida muito boa, amo minha mulher, meus filhos, meu pai, meus irmãos, cunhados, minha sogra, mas a "depre" bateu em mim hoje.
Sei que estou um tanto ausente na criação de crônicas. Culpa do ritmo de vida e da Internet. Deste tal Twitter que te abre espaço para o desbafo com você mesmo. E sinto muito ter voltado usando meu site como o Muro das Lamentações. Mas eu precisava colocar para fora o que estou sentindo. E prometo tentar, da próxima vez, ainda antes do Natal, escrever uma crônica mais alegre e agradável para vocês, sem melancolias.
25/05/2009
Há nove anos
Paulo Pontes
Ei, tudo bem? Estou completando nove anos. Verdade, ainda sou uma criança, mas que aprendi com o tempo como é que devemos fazer para participar da vida das pessoas.
Sabe, há quase dez anos o Paulo resolveu brincar de Internet. Tinha um provedor, o Uol, que deixava as pessoas fazerem seu sites. Hoje chamam isso de blog. Mas naquela época eram sites, que, na realidade eram como os blogs de hoje. Vocês entendem?
Aí ele escrevia coisas, mais coisas, vivia colocando crônicas e, como era numa página só, ficava comprido que só vendo. Quem entrava tinha que correr a página lá prá baixo pra poder ler o que estava escrito.
Então ele conheceu a Helo, num dia em que foi ao Raios de Sol dedicar suas horas de voluntariado. Amiga de muitos anos, os dois se reencontraram num trabalho voluntário. Ele, jornalista. Ela, pessoa interessada nas coisas da internet, começando um curso de designer.
Conversa vai, conversa vem, ela conheceu o site do Paulo.
- Site?
O espanto foi dela.
- Mais parece um amontoado de coisas, que não deixa as pessoas decidirem o que querem e o que não querem ler.
Só que o Paulo não sabia fazer nada além daquilo. Nem as tais ferramentas que o provedor dava para ele construir um site mais elaborado ele sabia usar. É uma situação ridícula, concordam?
Pois não é que a Helo começou a mexer, mexer, mexer, e construiu um site para ele! Verdade, todo azul, como ele gostaria que fosse, afinal sempre teve a Ultragaz como grande parceira, e não seria nada mais justo do que homenagear esta empresa, fazendo seu site nas cores do botijão da Ultragaz.
E foi num dia 25 de maio de 2000, para surpresa do Paulo, que a Helo colocou o novo site no ar. Ainda era pelo Uol, mas com mais profissionalismo.
O Paulo ficou assustado, impressionado, e começou a aumentar o volume de informações. O que era apenas um site de crônicas transformou-se em textos para reflexão, esportes, política, economia e o diário do Paulo. Sempre em azul. Tinha até livro de visitas para quem viesse me ver deixar um recadinho. Pena que alguns não entenderam o espírito da coisa e passaram a brincar. Então, eu fechei meu livro de visitas.
Passou o tempo e os temas foram mudando. Os esportes passaram a centralizar informações de futebol, tênis e fórmula-1. Depois o futebol ficou para trás, até porque o Paulo e a Helo lançaram um outro site, isso em 2004: o Tricolornaweb. Esse site fala apenas do São Paulo é o site que está com o São Paulo.
Com isso eu fui ficando meio de lado, meio abandonado. Afinal, o Tricolornaweb virou o queridinho dos dois. De 2004 para cá só se fala nele. E eu, coitadinho, eu estou aqui, quietinho no meu lugar.
Ah, mas há dois anos a Helo deu uma nova cara para mim e eu mudei um pouquinho. Passei a ter economia, política, crônica, reflexão e diário. Mesmo assim ainda tinha coisa errada. Meu diário servia para contar o dia do Paulo, mas acabava com sua privacidade. Então a Helo o convenceu a tirar do ar o Diário. E ele acabou mudando a política para o "Em foco".
Com isso eu fui transformado no site que pode ser tido como um blog. Afinal, "Em foco" quer dizer: os fatos importantes que estão acontecendo estão aqui.
Então eu pensei: agora sim ele vai olhar mais para mim. Que nada. Não é que resolveram fazer outro site: o Turismonaweb. Pode? São meus dois irmãos, mas eu sou o mais velho e exijo ser respeitado pelos maninhos.
Nao há de ser nada. Com o tempo eles vão se dr conta do quanto eu fui importante para eles. Para ela, incentivei o desejo pela informática, para que ela pudesse expor a criatividade que tem e que estava presa, escondida em algum lugar de seu corpo. Para ele, porque virei o espaço para o desabafo, para as críticas sem censura e para suas crônicas, fazendo até que ele pense que é um mestre literário (coitado!!!).
Mas chega de falar deles. O aniversário hoje é meu. São nove aninhos. Mas que eu, Paulo Pontes on Line, vou comemorar bastante, com meu irmão Tricolor na Web, meu irmão Turismo na Web, minha mãe Helo e meu pai, Paulo. Parabéns para nós!!!
09/05/2009
Sempre vou te amar, mãe!
Paulo Pontes
Sabe, nossos cordões umbilicais nunca foram cortados. Vivemos constantemente ligados às nossas mães. Elas partem e não cortam essa ligação divina em que nos apoiamos por toda a nossa vida.
- Mamãe! a primeira palavra do nosso vocabulário;
- Minha mãe! primeira coisa que pensamos quando precisamos de algo. Analisando gramaticalmente, primeira pessoa de um pronome possessivo;
- Mãnheeee! primeira coisa que gritamos após um susto.
Mãe, mãe e mãe. Mãe isso, mãe aquilo, e lá está a mãe, chamando a atenção do filho que pede atenção. Uma proteção diária e divina que nos pegou no colo e que, mesmo quando velhinha, nunca deixou de nos afagar os cabelos, de levar o café na cama quando o filho, já casado, vai dormir em sua casa.
Mãe com suas preocupações carregadas de orações, para com o filho que, nem sempre, lembra-se de avisá-la onde vai, com quem vai, quando volta, de se preocupar o que poderá causar com seu esquecimento, com sua falta de preocupação.
E lá estão elas, ocupadas em nos proteger de algo que possa nos ameaçar, atracadas em suas preces, nas suas conversas diárias com Deus. Assim, é óbvio, Deus ouve nosso pedido sempre por último, pois nossas mãezinhas estão lá, rezando tanto por nós, que Deus as ouve, nos socorre e só depois verifica o que queremos.
A mãezinha que temos no coração é nosso anjo-da-guarda em constante proteção. Seja perto, seja longe, não importa a distância, ela sempre nos tem em sua mente.
Mãe é sinônimo de sofrimento constante e amor eterno, de único e verdadeiro amor, que consegue fazer seu amor materno caber inteiro nesse diminuto coração, que é pequeno por fora, mas elástico por dentro. É mulher verdadeira, pura, audaz, forte e amorosa.
E nós, filhos? Nós somos cheios de falhas, que provavelmente muito tenhamos feito chorar nossas mães. Porque filhos, filhos e filhos, não mudam. Serão sempre os que correm para se agarrar à beira das suas saias, onde secam seus olhos nos momentos tristes, onde se apegam nos momentos em que caem sem forças para se recuperar. Somos fracos, carentes, sempre desejosos de seus abraços fortes, quase sem forças.
Mãe, minha fortaleza, meu ser, minha alma, minha vida. Você deu e daria sua vida por mim. Eu, apenas um filho que gostaria de te dar o maior e mais precioso tesouro do mundo: meu imenso e puro amor acompanhado dos céus, dos mares, das estrelas, do espaço universal. Te dar de presente as jóias mais preciosas do mundo! E por ser filho, queria poder te dar a vida eterna para estar ao meu lado, e te abraçar e te beijar a todo instante. Mas até para isso eu fui incompetente.
Espero, então, que a nossa distância não passe de um simples espaço de tempo, de um tempo que pode ser muito extenso, mas que um dia acabará e me fará estar com você outra vez, para fazermos tudo aquilo que sempre fizemos. E para eu poder te abraçar, te beijar e receber de volta este carinho e este amor.
Enquanto o tempo não chega, só posso pedir a Deus que me permita enviar em pensamento tudo isso e a certeza de que você sempre esteve colocado no posto sagrado de mãe dentro do meu coração. E saiba que eu te amo muito, muito, muito, mais do que tudo. Que Deus te abençoe. A você e a todas as mamães que estão lendo esta crônica. Porque mãe é mãe e será sempre mãe.
12/04/2009
O que é Pascoa?
Paulo Pontes
O que é Páscoa? Essa pergunta vem me atormentando há alguns anos. É verdade que não é um tormento daqueles que não me deixam dormir. Não é pior do que o São Paulo empatar algum jogo - não estou nem dizendo perder -, ou coisa semelhante.
Quanto eu era criança a Páscoa era sinônimo de ganhar ovos de chocolate que o coelhinho trazia. Na escola, em pleno regime militar, a professora ensinava a canção: "Coelhinho da Páscoa que trazes pra mim? Um ovo, dois ovos, três ovos assim..."
Eu, como qualquer criança da época, armava um ninho na sexta-feira Santa, quando não comemos carne, e deixava num canto da sala. No Sábado de Aleluia - que hoje chamam de Sábado Santo - eu ia, com meus amigos, malhar o Judas. E esperava chegar o domingo de Páscoa para o coelhinho passar e deixar meus ovinhos.
O tempo foi passando e, assim como o misticismo de Papai Noel caiu, o do coelhinho também. Mais d o que deixar de ser uma criança inocente e ingênua, eu precisava ter informações sobre as coisas da vida real e espiritual. Então fui colocado no catecismo, onde aprendi o significado de Deus, de Jesus, sua história, seu calvário, sua lição, sua crucificação. Mas ninguém explicou detalhadamente o sentido da Páscoa, a não ser que era o terceiro dia após a morte de Jesus, quando ele ressuscitou e voltou ao Céu, onde, de acordo com o Credo, "está sentado a direita de Deus Pai, Todo Poderoso, de onde há de vir a julgar os vivos e os mortos".
Naquela época, em que vivíamos o regime militar, explicações rasas nos eram dadas e nós tínhamos que aceitar, sem contestar, sem tentar esmiuçar, sem ter a ousadia de perguntar o por quê. Era como na matemática, onde algumas fórmulas são explicadas como "por definição". Ou seja, alguém achou que deveria ser assim, assim ficou sendo.
A Semana Santa é um calendário católico. Eu fui católico boa par te da minha vida, e ainda hoje gosto de ir a missa, se bem que faço isso uma vez por ano. Atualmente adoto a doutrina espírita, porque acho que é a que mais se aproxima do real, a que tem resposta para minhas dúvidas e que me dá o direito de não concordar com isso ou com aquilo e o debate fica aberto. Mas, por tradição católica, e eu diria mais, cristã, respeito o feriado. Não como carne na sexta-feira Santa e gosto de ter meu Ovo de Páscoa no domingo.
Páscoa, seguindo a doutrina católica, é passagem. No latim, esse é o significado da palavra Páscoa. Foi falado quando Jesus ressuscitou e passou para o outro lado. Ou seja, saiu do meio de nós e foi para o lado do Pai Celeste.
Quando dizemos hoje ao nosso familiar ou amigo Feliz Páscoa, estamos desejando que ele tenha uma boa passagem. Não que ele morra, mas que ele passe do estágio atual para outro melhor. Que ele tenha uma boa evolução, que melhore seus relacionamentos, sua forma de agir, co loque amor em seu coração. Esse é, repito, segundo a Igreja Católica, o sentido da Páscoa.
Como seguidor da linha espírita não renego esta teoria, até porque não deixei de frequentar a Igreja Católica. Só que no espiritismo sabemos que o Espírito de Jesus deixou seu corpo assim que ele desencarnou (morreu), e não três dias depois. O que houve no domingo de Páscoa, quando Ele apareceu para seu apóstolo, foi a materialização que Ele conseguiu, com muito plasma ao Seu redor. Mas ele já estava no outro plano desde a tal sexta-feira.
Mas se desejar Feliz Páscoa é desejar que a pessoa mude, que consiga melhorar em seus atos e tudo o que a possa fazer evoluir, então não importa que façamos esse desejo apenas uma vez por ano. O importante é desejar, do fundo do coração, que essa vibração chegue até as pessoas que nós queremos.
E eu, não mais criança, muito longe dos anos que me fizeram acreditar no coelhinho da Páscoa, já fiz a minha prece, as minhas vibrações e, me desculpem, mas agora vou comer os ovinhos que minha coelhona me deu de presente. E, antes que eu me esqueça, Feliz Páscoa! 06/05/2009
Que loucura é esta?
Paulo Pontes
Que loucura é esta que sinto por você? Que cegueira é esta que não me deixar ver se há algo de errado ou não no reino da Dinamarca? Que fissura é esta que sinto e que me arrepia só de te imaginar despida, ou com aquele vestido azul, de brim, ou aquele branco, de rainha?
Já me disseram que isso é amor. E eu acho que é mesmo. Alguns tratam como paixão, ou como você mesmo diz, como fogo por sexo. Mas eu acho que é um pouquinho de cada coisa, onde a somatória aponta o amor.
Mas o que é o amor? Talvez sua essência seja mesmo sua classificação gramatical. Um nome abstrato mas que faz com que o sentimento que despertas em mim se torne algo tão real, que às vezes tenho a impressão de que toda a beleza do mundo se materializa no meu coração.
Eu gosto de tudo em você: tua pele, mesmo sem te tocar; tua voz, sem nem ouví-la; dos teus cabelos e dos teus lindos e luminosos olhos; do teu belo sorriso; dos teus modos íntimos que só nós dois sabemos quais são e como fazer ferver.
Mas que loucura é esta que sinto por você? De onde vem? Nem com as agressões que me fizestes consegui me afastar. Hoje não te dou mais sandálias nem flores. Hoje não te beijo mais as costas quando acordo, nem viajo mais em devaneios ao olhar os seus pés. Procuro não me posicionar ao seu lado direito ou atrás de você. Mas, por mais que tenha tentado esse tempo todo te tirar da minha vida, arrancar do meu pensamento, você se tornou parte integrante dela e, mais, ocupou um espaço no meu coração. E quem ali está, de lá não sai.
Sei que hoje me tornei um homem menos feliz e menos alegre do que era até dois meses atrás. Mesmo assim passo o dia inteiro pensando em você, querendo que as horas voem para que eu possa estar ao teu lado. Preciso estar com você. Tenho necessidade plena de te tocar, sentir seu corpo encostado no meu. Preciso olhar você e sentir o quão linda você é. Uma rainha. Uma luz.
Sabe, a vida é assim mesmo. A gente se apaixona, aprende a amar, a aceitar os defeitos do outro, a gente aprende coisas, se dedica, se desgasta, chora, grita, sofre. Mas que loucura é esta que sinto por você? Que me irrita quando vem um não, um não de estou cansada, um não de estou com dor, um não de não estou a fim, ou um não pelo simples fato de ser não.
Acho que se amor é um nome abstrato, como diz o Aurélio, amar é um verbo intransitivo e, por isso, eu te amo porque te amo. É isso. Talvez explique essa loucura que sinto por você. 19/02/09
Crise na Disney
Paulo Pontes
Hoje estava lendo o jornal e, para variar, as notícias da crise financeira internacional dominando as primeiras páginas. Era a GM dizendo que iria cortar 50 mil postos de trabalho no mundo inteiro, a Phillips anunciando 10 mil demissões, outras grandes empresas informando que cortes drásticos no pessoal seriam feitos. Então deparei com a seguinte notícia: Disney anuncia que fará demissões. Segundo a nota oficial divulgada pela empresa, haverá um plano de reestruturação que prevê demissões, sem citar números, para simplificar a estrutura operaciona, melhorar o processo de tomada de decisões e eliminar as redundâncias.
Confesso que fiquei preocupado com a notícia. Como a Disney, logo ela, responsável pela realização de sonhos de milhões de pessoas no mundo inteiro, vai causar pesadelo para alguns trabalhadores. E quantos serão? Quais serão? São perguntas não respondidas.
Se não exist em respostas claras, abre-se espaço á especulação. Então eu, como jornalista - profissão preferida dos fofoqueiros - vou especular.
Acho que o Mickey está perdendo seu status. Me disseram que ele andou de encrenca com a Minie e os dois estão em ponto de separação. Para evitar que o conflito atinja outros moradores do parque, os executivos pensam em demitir o casal, que agora já seria ex-casal.
O Rei Leão também estaria na marca do pênalti. A idade passou e seu desempenho não tem agradado os visitantes. Fiquei sabendo que ele até não faz mais as vezes de marido com a Rainha Sarabi e que o Simba, seu filho, anda deprimido com a falta de juba. Logo, a família também entraria na lista de demissões.
O Pateta, sentindo falta do Mickey, entraria em depressão. Se é uma coisa que executivo americano não gosta é de trabalhador deprimido. Por definição, ele tem que estar sempre sorridente, ser solítico e servil ao freguês. Como poderia, então , suportar um cara que ficasse "down"? O Pateta, portanto, entraria na lista.
Com o drástico corte de despesas, o sapatinho da Cinderala não seria mais de cristal, nem ela usaria um vestido com brilhantes. A festa não seria mais num luxuoso castelo, mas transferida para um Buffet ao lado do Parque, o traje seria uma calça jeans e camiseta regata e a sandália tipo Havaiana. Nesse caso, a mudança mais radical seria o príncipe: seriam unificadas as estórias da Cinderela, da Bela Adormecida e da Branca de Neve, passando, então, a ter apenas um para ficar com as três.
Aliás, por falar em Bela Adormecida, ela teria que dormir numa beliche, pois o castelo será desmontado e haverá uma readequação de espaço. E por falar em Branca de Neve, quatro dos sete anões também serão demitidos e o Lobo Mal, por etar velho, será aposentado.
A administração do Parque da Disney passa, a partir de agora, a ser feita pelo Tio Patinhas. Ele terá com seu assesso r o Pato Donald, que, por sua vez, vai convencer o Memo a sair do Mar e se conentar com um pequeno lago ao lado do estúdio do Indiana Jones.
Outros funcionários como a Tartaruga Tuchê, Pepe Legal, Pica-pau e dr. Tuitle, que já estão velhos, serão dispensados sumariamente.
Peter Pan também será afastado. Esse negócio de ser criança para sempre não dá certo. Ele não progrediu. Os Incríveis serão mandados de volta para a outra Galáxia. Assim haveria uma drástica redução de funcionários na Disney.
Ah! Ia me esquecendo: O Pinocchio também será demitido por ter espalhado toda esta estória.
Coisas que não gosto de fazer
Paulo Pontes
É gozado. Minha mulher, há algumas semanas (eu disse semanas) vem me cobrando uma crônica. Ela diz - e está certa - que a última que escrevi foi no final de dezembro, e nós já estamos em janeiro. Ela diz - e está errada - que eu arrumo tempo para tudo - verdade -, menos para escrever uma crônica - errado -. Entao comecei a pensar em coisas que não gosto de fazer. Ser cobrado, por exemplo, é uma delas.
- Não gosto de fazer a barba. Tenho que fazer diariamente, até por causa da Jovem Pan Online, mas faço a cada dois dias. A irritação da pele serve como desculpa, mesmo eu tendo um barbeador elétrico. É muito chato ficar parado 20 minutos, em frente a um espelho, cortando os fiapos da barba rala que eu tenho.
- Não gosto de cortar o cabelo. Imagine só eu ter que me deslocar de todos os locais que costumeiramente frequento para ir ao cabeleireiro. Ele fica lá no S hopping Ibirapuera, nada a ver com meus caminhos. E isso não é nada. O pior é ficar 45 minutos sentado numa cadeira, com o cidadão cortando meu cabelo, eu vendo o tempo passar a não poder fazer nada. Ou seja: literalmente fico sentado, com um avental que parece aqueles que os esquisofrênicos usam, e não faço nada de proveitoso no horário.
- Não gosto de lavar o óculos. Com a poluição que existe em São Paulo, não consigo ficar um dia inteiro sem ter que ir ao banheiro lavar o óculos. Perco pouco tempo, é verdade, mas o ato de lavar, pegar um papel macio e enxugá-lo cuidadosamente para não riscar a lente, torna-se uma agressão à pressa que gosto de dar às coisas que faço.
- Não gosto de cortar as unhas. Aqui sobram críticas de minha mulher. Ela quer porque quer que eu vá a um pedólogo. Só porque tenho um pouco mais de dificuldade para cortar as unhas dos pés. Minha barriga, um pouco mais saliente nos últimos meses, interfere m no caminho entre minhas mãos e meus pés. Sem contar que geralmente erro e corto um pouco a mais do que deveria de fato. Mas podólogo, deixa prá lá...
- Não gosto de parar no posto para abastacer o carro. Na realidade eu gosto de fazer um caminho reto, saindo de um ponto e chegando a outro sem intercorrências. Só que o danado do meu carro, um Brava muito bravo, de vez em quando pede gasolina. Para minha alegria ele é dos mais econômicos. Mas chega o dia em que eu tenho que parar no posto. E aí o humor vai lá embaixo. E quando tem que trocar o óleo, então? Aí é a morte.
- Não gosto de parar no caminho do trabalho para casa para comprar lanche, por exemplo. Minha mulher tinha mania de pedir "traz alguma coisa gostosa para nós comermos", ou "já compra o lanche para a noite", nas sextas-feiras. Não, mil vezes não! Eu quero chegar em casa, sentir a folga do final de semana começando, botar uma bermuda. Aí sim, já livre do paletó e d a gravata, sair para comprar o tal lanche.
- Não gosto de sair domingo à tarde para visitar parente. O domingo, depois do almoço, foi reservado para o futebol e o descanso. Só admito sair de casa depois do almoço dominical para ir ao Morumbi ver o meu São Paulo jogar. É a glória. Do contrário, esqueça. Ou você acha que depois de uma feijoada, ou de um churrasco, ou um file a parmegiana, ou uma lasanha, eu vou ter condição de sair para a casa da sogra, do pai, do cunhado, do irmão, seja lá de quem for, e ficar ouvindo e contando estórias? Tô fora.
Acho que vocês devem estar me chamando de velho, arcaico, mau-humorado, chato e outras coisas mais. Mas só estou lembrando dessas coisas porque minha mulher fica me cobrando uma crônica, que eu não escrevo há tempos, e blá blá blá, e blá blá blá. Por isso, porque eu sou marrento, é que não vou escrever nenhuma crônica.
Eu não quero falar sobre isso
Paulo Pontes
Hoje é o último dia do ano. Dia de refletir sobre o que fizemos e o que poderemos, ou deveremos fazer nos próximos 365 dias. Sei que não é fácil fazer nenhuma das duas coisas. Refletir significa reconhecer os erros e comemorar os acertos. Prever não significa, necessariamente, certeza de que vai acontecer. Talvez seja até por essas duas situações que eu não queira falar sobre isso.
Aliás, o título que dei a esta crônica foi inspirada na música de mesmo nome, em inglês "I Don´t Want To Talk About It", interpretada por Rod Stewart e Amy Belle, que eu assistia agora há pouco pelo You Tube. Música e interpretações mavarilhosas.
Será que não querer falar sobre isso é fugir a alguma coisa? Ou é encontrar um ponto de equilíbrio entre o que é inócuo e o que é exageradamente falso? Não sei bem a resposta. Mas se soubesse, talvez manteria a posição de não querer falar s obre isso.
31 de dezembro, faltam poucas horas para o espolcar dos fogos no Reveillon de 2008 e eu estou aqui, falando estas coisas. Nada de deprê, ao contrário, tenho mais é que comemorar a passagem do ano. Afinal, se 2008 me trouxe como extremas alegrias o hexa-campeonato do São Paulo e uma forte aproximação familiar, também me marcou com fatos que gostaria de esquecer, como as férias perdidas por internação hospitalar graças a meu rim, perdas alucinantes na Bolsa de Valores com a crise internacional, algumas oportunidades que deixei passar.
Houve momentos neste ano em que me senti enclausurado entre quatro paredes, com a decisão me esperando para ser tomada, e eu nada fiz. Afinal é muito ruim para a nossa própria estima quando você faz o que pode e o que não pode pela felicidade de alguém e, de repente, sente que de nada representou seu esforço. Aí bate a deprê. Não, não gosto de usar esse termo. Acho que é coisa de fresco. Então acho melhor não falar sobre isso.
E 2009? Será que alguma coisa vai mudar? Não sei. Há pessoas que vivem um mundo muito particular e não conseguem, e nem querem, viver um ano bom. Há outras que, ao contrário, plasmam tudo certinho e conseguem atravessar o ano sem atropelos, sem permitir com que qualquer fato interfira em sua felicidade.
Talvez 2009 seja o ano das grandes decisões, grandes atitudes. Quem sabe 2009 abra um horizonte de luz nos olhos dos que tem a penumbra, e mantenham o brilho no olhar de quem consegue ver o sol como ele é. Eu espero que 2009 me mude do 6-3-3 para o 7-4-4.
Espera um pouco: estou escrevendo esta crônica aqui na Redação, mas pela janela consigo ver a avenida Paulista e vejo um senhor sentado à beira da calçada. A avenida está interdirditada por causa da São Silvestre. O que estaria se passando na cabeça deste senhor? Ele está mal-trapilho, barba por fazer, cabelos longos encaracolados. Aparenta ter mais de 60 anos e está só, sem ninguém por perto. Não sei o que ele está pensando, nem com quem passará o Ano Novo. Só sei que deve ter muita experiência em sua vida e muita história para contar. Se está sozinho, pode ter sido por vontade própria ou, até, um merecimento. Mas sinto um vazio imenso em meu coração, sabendo que todos nós temos uma família e estaremos juntos, esta noite. Este senhor vai estar sozinho.
São cenas do cotidiano, que registrei ainda em 2008. Estou certo que voltarei a registrá-la em 2009. Basta eu querer. Aliás, basta querer para fazermos tantas coisas. Se o Fernando Henrique Cardoso, quando presidente da República, pode falar "esqueçam o que eu escrevi", por que eu não posso também gritar "esqueçam o que eu combinei"? É que não sou político e minha palavra vale mais do que milhões de páginas escritas, assinadas e rubricadas.
Por tudo isso, não quero falar sobre isso. Nem sobre aquilo. Só espero que em 2009 você ten ha muita luz e muita paz no coração. O resto a gente resolve.
Minha Princesa Jornalista
Paulo Pontes
Ela conseguiu. Me surpreendeu, é verdade. Não no fim, mas no início. Sim, porque nunca a ouvi dizer que quereria ser jornalista. Pensava em teatro, modelo, artes. Mas jornalista, não.
Aliás, seu irmão mesmo, meu príncipe, também me surpreendeu. Como ela, pelo início, não pelo fim. Era tenista, queria educação física, mas acabou jornalista, com 10 no TCC. Grande André Pontes.
Mas hoje não estou falando do André, e sim da Ana. A Ana Lúcia. A Ana Lúcia de Almeida Pontes. Mas que daqui para a frente será a Ana Pontes. Minha Aninha se formou em jornalismo. Ela tirou 10 no TCC. Foi uma noite memorável a de terça-feira, 25 de novembro. Me lvou às lágrimas, assim como ela chorou, o que também, em se tratando de Ana, não é uma grande novidade. E esse 10, que foi o fim, é que não me surpreendeu.
É, filhota, eu lembro do dia em que você nasceu (claro que eu não pdoeria esquecer), deixei você com apenas um dia de vida e sua mãe no hospital e fui para a Bandeirantes trabalhar. Efetivamente naquele dia comaçava minha carreira. Até ali tinha sido um ensaio para aquisição de experiências. Mas como é que eu poderia imaginar que aquele bebê, mavavilhoso desde o berçário da Maternidade São Paulo, iria seguir a minha carreira?
Certamente será uma das melhores que o País vai conhecer. Você sempre foi muito aplicada, nunca nos deu trabalho na escola. Ao contrário, sempre foi motivo de muito orgulho para nós.
Sua trajetória foi impecável: Conceição Andrade (lembra da professora Mara?), sua festa de formatura em Fortaleza, o Módulo, a Fiam. O começo do seu futuro profissional.
Hoje você já é essa profissional. E mais uma surpresa: quem sonhava com a televisão, hoje quer o rádio. Exatamente o meu veículo. Que doença é esta chamada rádio? Quem o faz um dia, não o abandona jamais. Pois o rádio terá Ana Pontes, como a Veja tem André Pontes.
Você deve lembrar, eu um dia falei para o André usar André Luís Pontes. Acho que ficava perfeito. Ele preferiu simplificar. Também acho que você poderia ser a Ana Lúcia Pontes. É um nome maravilhoso. Mas, também sei, você quer ir para o simples e direto.
O importante é que, sendo Ana Pontes, Ana Lúcia Pontes ou até Ana Lúcia de Almeida Pontes, você é minha Aninha, meu anjinho, minha princesinha, a gatinha que eu amo de paixão alucinadamente.
Eu agradeço a cada dia os filhos que Deus me deu. Principalmente agora, no momento que estamos vivendo, que eu espero seja eterno.
Acredite, filha: nossa missão está cumprida. Eu e sua mãe conseguimos cumprir a missão que Deus nos confiou. Hoje, ao lado de minha nova mulher, estamos aplaudindo e revenciando sua vitória. A partir de agora você é uma profissional e vai galgar espaço nesse mercado tão restrito a quem tem competência. Você é minha princesa jornalista.

Meio Século
Paulo Pontes
Na história tratamos períodos geniais como eras da história. Em meio século muita coisa pode acontecer. No meio século que se encerra hoje temos um vasto rol de acontecimentos que mereceram registros:
- O Brasil ganhou cinco campeonatos mundiais de futebol
- O homem chegou à Lua
- O mundo viu o comunismo se acabar, o Muro de Berlim cair e as ditaduras ruírem para a democracia imperar
- Novas doenças surgiram, mas a ciência descobriu a cura para quase todas elas
- Apesar da civilização ter evoluído, as guerras continuaram acontecendo
- O São Paulo, meu Tricolor, ganhou três títulos mundiais no futebol (desculpem, mas na esteira do assunto, nasceu o Tricolornaweb)
- O mundo conheceu os Beatles
São tantos os fatos que marcaram os últimos 50 anos que eu talvez ficasse mais meio século para enumerá-los. Então comecei a pensar: " ao invés de ficar lembrando fatos, por que não volto na minha vida e relembro como eu, e as próprias pessoas pensam sobre chegar-se aos cinquenta anos?
É verdade que depende muito da idade de quem está pensando.
Para uma criança de dez anos de idade, chegar aos 50 anos, é ser, incontestavelmente, avô ou avó de muitos netinhos. Dar bons presentes no Natal, ser deixado de lado nas festas de aniversário porque são lugares onde geralmente tem muito barulho e os avós geralmetne não gostam do barulho que as crianças fazem, mas mesmo assim, são eles que compram os melhores presentes, ou pelo menos, os que o neto mais gosta, ainda mais se as roupas puderem ser compradas pelos pais.
Enfim, para os miúdos de 10 anos, ter cinquenta anos equivale a ser um cofrinho, só que bem mais poderoso que o deles, e onde as moedas não fazem barulho.
Mas e quando chega os 20 anos?
Para os jovens de 20 anos, ter cinquenta anos é ser antiqüado, ter dores embaixo, em cima, do lado, enfim, a decrepitude em pessoa.
Estorvo: é como eles vêem as pessoas de 50 anos. As músicas e filmes que povoam as lembranças dos cinquentões não provocam aplausos nem vaias nos jovens de 20 anos, provocam algo que eles expressam com "UahUahUah", que infelizmente eu não consegui definir o que seja.
Eles tem absoluta convicção de que não chegarão lá, ou melhor, pensam que chegarão aos 50, com o vigor dos 25, é mais ou menos isso.
Mas tem a turma dos trinta.
A avaliação dos cinquentões melhora consideravelmente aos olhos dos que têm 30. Não são mais tão velhos, passam a ser "maduros".
Afinal, começa-se a aceitar a idéia de que todos, crianças ou não, vão ter que encarar o "maledeto" 50, mais cedo ou mais tarde, dependendo de como for a vida. Se ela estiver boa, passa como um raio. Se as coisas se complicarem, arrasta-se sonolenta e desesperadoramente.
Mas, lentamente ou não, chegamos à turma dos quarenta.
Para esses, ter cinquenta é ser menino ainda, principalmente depois que o "rei" Pelé lembrou a todos que a vida começa aos 40.
É mais ou menos nessa época, nos 40, que descobrimos o espírito. Sim, porque a partir daí, precisamos dele para dizer que ele não envelhece, que tudo depende de como você encara a vida, que ser jovem é um estado de espírito, e "blá blá blá". Só "blá blá blá" mesmo, porque as rugas estão lá, traiçoeiras e atrevidas.
Você pode esticar feito qualquer artista e parecer que está rindo, quando está chorando, mas eu ainda sou de opinião que é melhor não bolinar nas danadas das rugas, porque quanto mais estica, mais o caldo entorna, essa que é a verdade.
Mas o designativo "menino" é a marca registrada dessa idade, porque eu garanto a vocês, que nunca fui chamado de menino tantas vezes, como na última década.
E agora cheguei aos 50... Então, eu mesmo vou dizer como é ter 50 anos, para quem também está chegando na idade...
Você acorda de manhã, cara amarrotada e feio, porque todo mundo é feio com 50 anos de manhã, olha para o espelho, com cara de poucos amigos, pensa um pouco, só um pouco e diz lá com seus botões: -"Putz, você já viveu um bocado, hein?!" "Que experiência adquiriu"!
E sai pra vida, como se tivesse 20 anos...
Onde o ciúme pode nos levar
Paulo Pontes
Hoje, lendo diversos textos na Internet, deparei com um que me assustou profundamente: escrito por um professor de direito penal, o crime ocorreu e foi divulgado em revistas jurídicas da época, lá pelos idos de 1950.
Antes de relatar o fato, gostaria de tecer um comentário particular sobre o ciúme, até com base em estudos psiquiátricos que li também hoje, pois estou tentando entender este tema. E há uma conclusão: o ciúme tem feito danos vigorosos no seio familiar e na sociedade em geral.
De acordo com estes psiquiatras, as emoções humanas não surgem por acaso. O amor promove a união dos casais e, em muitos casos, a geração de filhos. O medo ensina a resistir aos ataques. Mas e o ciúme? À primeira vista, este sentimento parece totalmente negativo. Além de causar a infidelidade tanto do ciumento quanto de seu parceiro, costuma destruir os relacionamentos e, em casos extremos, tem desfechos violentos ou mesmo trágicos. O ciúme doentio, intenso, obsessivo e descontrolado é sintoma de dificuldadese emocionais. O ciúme pode ser considerado uma enfermidade psicológica, que sufoca a vítima objeto do criúme, que se torna cada vez mais ressentida com a falta de confiança do seu par. Pensamentos distorcidos alimentam essa emoção, prevalecendo a fantasia em detrimento da realidade, originando a depressão.
O ciúme brota viçoso nos casamentos ou concubinatos realizados sob o domínio exclusivo da beleza física, onde o homem e a mulher foram arrastados ao laço não pela admiração das qualidades morais, mas pela fascinação das formas encontadoras e voluptuosas. É lógico que na seqüência veio o amor, e só por ele veio o ciúme. Nos temperamentos equilibrados e sadios o ciúme raramente atinge a obsessão da idéa fixa, atormentadora e tenaz. O homem ou a mulher de inteligência lúcida reflete nos motivos da desconfiança, examina, compara, recordam-se dos antecedentes e se estes motivos são frívolos fúteis, insignificantes, não resistem a análise, são rejeitados pela argumentação fria, desaparecem da memória com recordações inoportunas de um sonho mal sonhado.
Tudo que é demais é ruim. Assim é na vida, no jogo, no sexo, no amor, no ciúme. Nada resiste a abundância, porque se torna grosseiro. Nada resiste ao ciúme obsessivo, nem um grande amor.
Mas, como disse no princípio, verifiquei alguns textos na Internet e encontrei este escrito por um professor de Direito da Facudade do largo São Francisco (o texto me foi sugerido, inclusive, por um colega na Pan, também formado na USP.
Numa determinada cidade brasileira havia um casal, cuja esposa era simples e muito educada, prestativa, cuidava do esposo com muito amor, isto sem mudar a atitude de uma fiel companheira.
Aconteceu que o esposo deixou ser tomado por esta infeliz doença do ciúme e isto amadureceu e chegou num ponto crítico e incontrolável.
O homem endoidou, passou a ter alucinações e sua mente ficou cheia de fantasias que não tinham nada de realidade, colocou na cabeça que a pobre esposa não o amava e ainda o traía.
Então ele intentou uma viagem e disse que não sabia quando iria retornar e, sem a esposa perceber, levou consigo uma maldita arma de fogo. Em frente de sua casa havia uma mata bem fechada. A esposa, com tanto amor e carinho, arrumou a mala e ele partiu e desapareceu. Horas depois ele voltou e se escondeu na mata, de modo que via tudo que se passava em casa.
Será destino? Justamente enquanto o homem lá da mata vigiava sua casa e sua esposa, chegou à sua porta um senhor com uma mala, bem arrumado. A esposa do ciumento, quando viu este homem chegando, atirou-se em seu pescoço,d eu-lhe um forte abraço e um saudável beijo sem malícia em seu rosto.
O infeliz marido não pensou duas vezes. Estavam ratificados seus maus pensamentos. Correu em direção de sua casa e desfechou vários tiros no moço, que ainda descansava de uma longa e sofrida viagem.
O moço infelizmente morreu na hora e a esposa do infeliz ciumento, em pranto, disse:
- Você acabou de matar meu irmão que eu mais amava e há tantos anos não o via... Quanto sofreu para visitar-me!
Retratos de uma tragédia anunciada, tudo em nome do infernal e aterrorizante ciúme!
Emoção sem fiim
Paulo Pontes
Os últimos 15 dias foram marcados, para mim, por muita emoção. É que eu ainda consigo derramar lágrimas quando ouço tocar o Hino Nacional Brasileiro e quando vejo nossa bandeira tremulando no lugar mais alto do pódio. E como um amante do esporte não poderia ficar alheio a tudo o que aconteceu na Olimpíada de Pequim.
Tenho sido muito cobrado por minha mulher, pois há muito tempo não escrevo uma crônica. Ela reclama, com toda a razão, que meus leitores estão órfãos destas pretensas obras literárias que vez ou outra posto aqui em meu site.
A ausência, ao menos nestas duas semanas que se passara, pode ser explicada pelos jogos olímpicos. Já confessei em público que a Olimpíada me prende mais, me emociona mais que a Copa do Mundo. Não quero dizer com isso que não torço para a Seleção Brasileira. Mas ali é apenas o futebol. Na Olimpíada, não. Temos vôlei, tênis, ginástica, natação, judô e tantas outras modalidades, com os atletas esbanjando preparação física e dotes de genialidade. Sou um amante do esporte.
Sempre corro o risco de ter brigas em casa. Afinal minha mulher sabe que só desvio a atenção dos jogos olímpicos para assistir ao jogo do São Paulo. Abro mão de tudo. E olha que a participação do Brasil não foi daquelas que poderíamos esperar. O próprio presidente Lula foi bem feliz ao dizer que “a participação do Brasil foi apenas razoável”, numa cobrança direta ao presidente do COB, e que houve grande frustração, mais uma vez, com o futebol. O masculino, é claro, porque o feminino fez bonito e foi vítima de grande injustiça na derrota para os Estados Unidos, ficando com a prata.
Mas já no primeiro final de semana fui às lágrimas com o choro emocionado de Cesar Ciello, no alto do pódio com a inédita medalha de ouro para a natação brasileira. E foi nos 50 metros nado livre. Também reconheci a exuberância de Michel Phelps, um gênio do esporte mundial, com oito medalhas de ouro na natação. E de Usian Bouth, o jamaicano que rompeu recordes antes imbatíveis na extrema velocidade e na largura de seus passos.
Quem não chorou ao ver Maurren Maggi recebendo a medalha de ouro depois de saltar 7,04m no Ninho de Pássaros? Ela deu a volta por cima. Depois de ter sido flagrada com substância considerada dopping, após uma depilação feita em São Paulo e ser suspensa por dois anos, no auge da carreira, ficando fora da Olimpíada de 2004, e de um casamento tumultuado com o piloto de automobilismo Antonio Pizonia, teve Sophia que lhe deu forças para voltar a treinar e chegar à glória com o ouro na China. Uma vitória de quem, um dia, sentiu-se derrotada. E que seu exemplo sirva de lição para todos os que hoje se julgam acabados para qualquer atividade, seja física, seja profissional, seja no amor.
Alegrias com a vela, o judô e o tae-kwon-do.
Também sobraram lágrimas com o ouro das meninas do vôlei. Elas mostraram que não são amarelas na forma de agir, mas na camisa que vestem, na cor do coração.
Também tive lágrimas de tristeza e decepção. Tristeza pela derrota no futebol feminino, no vôlei masculino e no salto com vara. Decepção com o futebol masculino, que mais uma vez naufragou na busca do ouro. E com o vôlei de praia, de quem eu esperava ouro.
Pequim ficou no passado, e agora começo a contagem regressiva de infindáveis quatro anos para chegarmos a Londres, quando serão disputados os jogos olímpicos de 2012. No meio do caminho teremos a Copa do Mundo. Mas meu espírito olímpico continua com a tocha a todo o vapor. E que o governo, mais do que discurso, tenha também essa chama acesa e invista para valer nos esportes olímpicos. Eles também ilustram a imagem do Brasil no Exterior.
Paulo Pontes
Meu amigo, talvez alguém já tenha escrito uma crônica com este título. Uma não. Muitas. Mas esta semana, para variar, estava meio sem assunto para escrever, até que, conversando com um amigo, ele me disse que gostava mais das crônicas que falam do cotidiano. Fiquei então matutando "...cotidiano, cotidiano, cotidiano".
Mas como é que eu posso falar do cotidiano sem retratar a violência de um modo geral? Esse escárnio sem precedentes na história recente da humanidade, que está tomando conta de todas as classes sociais em todos os países. Já não existem "diferenças" comportamentais ligadas ao nível social dos envolvidos.
Dia destes li num jornal do Nordeste uma estória inusitada: seqüestradores amadores, totalmente despreparados, usaram um cavalo para fugir e, como resgate, pediram um aparelho de televisão. Quando viram que o aparelho não era lá essas maravilhas, pediram quinhentos reais (como se quinhentos reais valessem muita coisa). Veja a que ponto se chegou! Enquanto isso, guardados em seus gabinetes, as "autoridades" discutem se devem ou não modificar o Código Penal.
Mas estou escrevendo esta crônica para tentar mostrar bem o que é a diferença de tratamento que se dá para um e para outro. Como diria este amigo meu “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”. Todo o mundo acompanhou mais uma ação da Polícia Federal, que prendeu Celso Pitta, ex-prefeito de São Paulo, o megainvestidor Naji Nahas e o banqueiro Daniel Dantas. E todo o mundo ficou sabendo que eles não chegaram a ficar 24 horas na cadeira. Foram soltos graças a um habeas corpus concedido pelo presidente do Supremo Tribunal Federal.
Vendo isso mais uma vez acontecer é que relato, abaixo, duas cenas do cotidiano, em que o filho pergunta para o pai o significado das coisas:
Cena I
Filho: pai, por que aquele cara lá está preso?
Pai: filho, é que ele assaltou a granja e roubou três galinhas.
Filho: mas precisava ser algemado?
Pai: todas as pessoas que são presas vão algemadas para a cadeia.
Filho: mas ele estava apanhando da polícia...
Pai: é que a polícia acha que ele também roubou um perú, filho.Mas onde você está vendo isso?
Filho: eu estou assistindo o Datena. E ele tá chamando o cara de vagabundo e dizendo que tem que ir pro xilindró.
Pai: mas filho, se ele roubou, tem que ser preso.
Filho: Ah! Sei!
Cena II
Otávio: Alfredo, o que aconteceu na Polícia Federal?
Alfredo: os meganhas prendederam gente importante, gente fina.
Otávio: quem?
Alfredo: Celso Pitta, Daniel Dantas e Naji Nahas.
Otávio: que crime eles cometeram?
Alfredo: corrupção ativa, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, evasão de divisas, sonegação de impostos, tentativa de suborno, desvio de verbas do governo e fraude no sistema financeiro.
Otávio: Ah! Tá bom! Então eles não vão ficar presos.
DIA DOS NAMORADOS
Paulo Pontes
12 de junho é o Dia dos Namorados.
- Até aí nenhuma novidade.
- Hoje vou escrever uma crônica sobre este dia.
- Que criatividade, não?
Perdoem meus leitores, mas este diálogo travei agora há pouco com minha consciência. É que minha mulher fica me cobrando: “escreve uma crônica, olha quando foi a última vez que você produziu uma, vai, escreve”. E eu fico me aporrinhando com a necessidade. Mas minha ficha cai e eu me lembro que brincar um pouquinho de escritor, soltar minha veia literária absolutamente atrofiada, sempre foi um prazer para mim.
Mas qual assunto iria abordar, a não ser o Dia dos Namorados? A própria semana que contém este dia já traz um clima diferente, mais apaixonante, mais quente, do que as outras semanas. Fica aquela expectativa da chegada do dia, o que ela vai me dar, o que eu vou dar a ela. Então eu vou logo dizendo que a última vez que eu dei um presente no Dia dos Namorados, eu ainda era solteiro. E isso já faz mais de 27 anos.
Apesar de tê-lo como um dia especial, propício para estarmos ao lado na nossa cara-metade comendo pipoca com guaraná, não pactuo da volúpia comercial que a data exige. Esse negócio de ter que dar presentes neste dia não me envolve. Prefiro outras coisas.
Para tentar dar uma idéia do que é o meu pensamento para esta data relembro um fato que se passou em minha carreira, lá pelos idos de 1987. Eu era do repórter da madrugada da rádio Bandeirantes e, com a produção, resolvi traçar um roteiro para o Dia dos Namorados. Era uma sexta-feira, 12 de junho de 1987. Parti para diversas reportagens entrando ao vivo no programa Bandeirantes Boa Noite, orientando os namorados que procuravam uma opção naquele dia, ou se preparavam para fazer do sábado este dia.
Comecei pelas bancas de flores da avenida Doutor Arnaldo. Levantei o preço do arranjo de rosas, orientando que este seria o primeiro passo para o namorado antes de encontrar sua amada; dali fui a um restaurante, observei o cardápio, dei sugestões para um belo jantar à luz de velas, com música ao vivo e um ambiente de extremo romantismo. A ceia seria regada a vinho francês, pois a data exige um certo excesso financeiro.
Saindo do restaurante fui a uma rede de motéis. Levantei as diversas opções de suites, com banheira de hidromassagem, sais e espuma, cama d'água, redonda, espelhos no teto, TV com filmes de todos os gêneros, inclusive pornôs, e outros utensílios próprios do local.
A noite/madrugada do casal terminaria num hotel de São Paulo, com café da manhã digno de reis e rainhas que são no que se transformam todos os namorados.
É verdade que tomei uma bronca na Bandeirantes. Afinal, em 1987, não se podia admitir em público que um casal de namorado ia para o motel transar. Isso era coisa para casados. E motel tinha o sinônimo de vadiagem, sacanagem.
Só lamento que hoje, 20 anos depois, as coisas tenham mudado tanto. Hoje não é necessário se estar namorando para ir ao motel. Muitas vezes casais de jovens, que acabaram de se conhecer e muitas vezes nem lembram o nome um do outro, estão nos motéis da vida. São homens com mulheres, homens com homens, mulheres com mulheres. Houve uma liberdade que a mim mais parece uma libertinagem.
Mas isso não invalida o roteiro que fiz. Acho que temos que manter o romantismo e aproveitar a data para reforçar o amor que sentimos por nossa amada, nossa eterna namorada. É o momento de virar para ela e dizer bem alto: EU TE AMO!!!Muitas vezes essa frase passa despercebida e quando damos por nós concluímos que a última vez que falamos isso foi no Dia dos Namorados do ano passado.
E então, que tal a idéia? Pegue o roteiro, siga-o rigorosamente e diga essa frase mágica. Você vai ver que o resultado é fantástico. Eu já estou treinando: EU TE AMO, HELÔ!!!
Amigo Carvalho
Paulo Pontes
Hoje recebi uma notícia das piores logo pela manhã. Estava sentado no estúdio da Jovem Pan, apresentando o Jornal da Manhã, quando o companheiro Roberto Muller chegou para me contar a nova: Antonio Carvalho havia falecido. A segunda-feira, que já é um dia pesado demais para se agüentar o fardo, começou ainda mais difícil. Pior: não pude sequer lhe prestar a última homenagem, para os materialistas ao lado da urna funerária. Ele faleceu no sábado e sepultamento foi no domingo.
Triste coinscidência, o domingo era um dia muito alegre: aniversário de José Paulo de Andrade, meu eterno padrinho nesta profissão que abracei, o jornalismo. Eu bem que tentei falar com o Zé Paulo. Liguei me sua casa, seu celular, mas não o encontrei. Ele estava no velório do nosso amigo comum.
Antonio Carvalho, o Carvalhão, era um daqueles caras - e me permito tratá-lo assim pela nossa convivência - que te fazia passar horas e horas conversando, mais ouvindo do que falando, e não sentia o tempo passar. Com uma voz poderosa, marcou boa parte da minha vida quando eu ainda não trabalhava em rádio e ouvia a Bandeirantes. Deixou sua marca registrada em muitos programas, como Ciranda da Cidade, Bandeirantes Acontece e Arquivo Musical.
Me lembro dos encontros que tínhamos pelos corredores da Bandeirantes. Antonio Carvalho sempre tinha uma nova teoria sobre Esoterismo e o mundo além da Terra. Eu me interessava, afinal de contas sou espírita e gosto de conversar com aqueles que entendem que a reencarnação é uma realidade e que a vida não se resume à matéria que transporta nosso espírito. Ela vai além, muito além do que nós mesmos, por mais que estudemos a doutrina espírita, podemos imaginar.
Longe de mim ter inveja de alguém, mas eu gostaria de ter, nessa área, 10% da sabedoria que o Carvalhão tinha. E saber falar como ele falava, explicar com tal grau de conhecimento que ninguém que o ouvisse ousaria duvidar de que ali estava um doutor no conhecimento além da Terra.
Marco no rádio brasileiro, Antonio Carvalho vai deixar uma grande lacuna a ser preenchida. Quis o destino que meu filho, recém-formado em jornalismo, tenha trabalhado com ele. Já combalido pela doença, era o André quem me dava as informações sobre seu estado de saúde.
Não tenho dúvida em afirmar que Antonio Carvalho fez parte da época de ouro do rádio e da Rádio Bandeirantes, principalmente. Ela que com o tempo foi tão esfacelada por algumas pessoas que por lá passaram, e que só pensavam na ambição pessoal. Mas os pilares que sempre a sustentaram marcaram o tempo e se perpetuaram em seus microfones.
O nosso grande Carvalhão partiu. Agora ele está lá em cima conversando com outras pessoas, falando sobre a atitude doutrinária, pedagógica ou sectária segundo a qual certos conhecimentos, relacionados com a ciência, a filosofia e a religião, não podem ou não devem ser vulgarizados, mas comunicados a um pequeno número de iniciados. Com a certeza de que este dia seja bem melhor do que ontem e bem pior do que amanhã.
Mamãe Daicy
Paulo Pontes
Oi mãe. Eu não sei bem onde você está. Até consigo de encontrar de vez em quando cumprindo a missão que Deus te confiou em outro plano, que não é o que estou. Você sabe que meu pensamento está sempre em você. Não é pelo fato de ser amanhã o Dia das Mães que venho escrever este texto e falar de você.
Aliás, percebe que continuo te chamando do jeito que sempre te chamei: você. Afinal você era jovem, bonita, alegre, bondosa, carinhosa e, desculpe o meu pai, cheia de charme.
Sabe, mãe, eu me lembro de tantas coisas que passamos juntos. Detalhes de uma vida que ficaram restritas a nós dois. Alguns, até, que nem me lembro, mas que você guardou para si e hoje não tenho como saber.
Lembra daquele coelhinho, que você e papai me deram quando eu ainda era bem criancinha, tinha lá meus cinco anos? Nós morávamos num apartamento da rua Piracuama. Eram dois dormitórios, sala, cozinha, banheiro, área de serviço e um terraço. Pois eu corria com ele por todos os cantos. Era um companheirão. De repente ele sumiu. Você disse que ele fugiu. Só que naquela semana comemos coelho...e eu nem me liguei.
Foi uma mentirinha necessária, reconheço. Eu senti muito a falta dele. Só depois de alguns anos vocês me contaram a verdade.
E o seu nome? eu não me conformava de você chamar Daicy. Queria que fosse Deise. Mas meu avô não quis assim, o que eu posso fazer?
E a festa de fim de ano na Secretaria da Fazenda, onde você trabalhava? Lembra que eu tomei tanta groselha, mas tanta groselha, que você quase teve que me levar para o hospital em função do enorme enjôo que tive?
Mãe, talvez eu já tenha contado esses "causos" em outras crônicas. Mas na vida da gente é sempre assim. Sai tudo em pílulas, em capítulos como nas telenovelas.
Não me esqueço, mãezinha, quando você brigou com meu pai para me defender. Eu jogava botões com ele e geralmente ganhava. Quando eu estava com o São Paulo, era impossível. Quando ele estava com o Santos, eu só perdia. No dia do grande clássico, eu estava ganhando, mas nos últimos minutos ele virou o jogo e quebrou uma eterna invencibilidade que eu tinha. Eu chorei muito e você ficou brava com ele por não ter-me deixado ganhar. Ele estava certo, mãe. Eu tinha que aprender que a vida é feita de vitórias e derrotas. Mas você foi meu ombro, meu colo e meu aconchego.
É mãe, a vida não é fácil. Eu cresci, estudei, me formei e hoje sou um profissional vitorioso, graças a Deus. E você acompanhou boa parte desta minha trajetória. Sempre estave ao meu lado me apoiando. Vibrou com as conquistas. Se orgulhou do filho que conseguiu chegar na posição que eu cheguei.
Eu sei, mãe, que você deve estar lendo esta crônica de algum lugar deste Universo de Deus e se questionando: por que ele só está falando dele, esquecendo seus irmãos? É claro que eles também a amam tanto quanto eu e têm muitas estórias para contar. Mas aqui, neste espaço, fui um pouco egoísta e só quis falar sobre o meu passado, as minhas passagens com você.
É, mãezinha, o Dia das Mães é difícil. 28 de dezembro é difícil. 27 de outubro é torturante. Todos os dias são difíceis sem você. Sabes que eu faria qualquer coisa que estivesse ao meu alcance para tê-la aqui ao meu lado. Eu sei que vez por outra eu sou abençoado e premiado com sua presença. Apesar de muito rápida, de intensidade inexplicável. Mas eu queria te sentir, te tocar, te abraçar, te beijar. Queria deitar no seu colo como eu fazia quando era criança e sentir você passar as mãos nos meus cabelos.
Não dá, né! Não dá! Eu sei que não posso te chamar. Não devo te chamar. E não estou te chamando, quero que entenda. Mas ninguém pode me impedir de sentir saudade e de derramar lágrimas em momentos de solidão ou de dúvidas que me surgem ao longo da caminhada e que penso em você. Aliás, mãe, você não me sai do pensamento. Te venero muito e faço muitas orações para que você esteja bem e consiga admistrar essa situação de distância dos filhos.
Sabe mãe, eu olho algumas mães de hoje e vejo verdadeiros absurdos. Maltratam seus filhos, ignoram seus problemas. Algumas, até, cometem assassinatos e os jogam pela janela do prédio. Não merecem ter o título de mãe. Este título é sublime, é sagrado, e o significado maior da palavra amor.
Bem, mãe, eu vou ficando por aqui. Estou imaginando que você deva estar lendo esta crônica, do lugar aonde estiver. Deve estar com saia e blazer vermelhos, com uma camisa branca por baixo, e uma leve maquiagem no rosto e o sorriso aberto. Saiba que eu te amo e te amarei para sempre com muita intensidade.
Um beijo, fique com Deus e um feliz Dia das Mães.
A descoberta
Paulo Pontes
Quem sou eu?
Eu sou um cara que tenta ser justo com as pessoas, trabalha intensamente, não perde seus ideais de juventude apesar do quase meio século que carrega nas costas. Sou uma pessoa que tenta fazer o melhor possível todas as coisas que me são dadas por responsabilidade, não fujo a ela, assumo integralmente. Sou um pai que ama seus filhos intensamente e um marido que é perdidamente apaixonado por minha mulher.
Quem é você?
Há algum tempo poderia começar a resposta com um talvez, mas hoje posso iniciar que, com certeza, é aquela pessoa por quem esperei, por quem procurei e que encontrei. Talvez, aí sim, um pouco tarde, mas não tarde demais para resgatar o tempo que ficou para trás.
Quem é ele (a)?
Não sei. Gostaria de saber. Mas ele ou ela são pessoas anônimas, que não se convenceram até agora de ter perdido um amor, ter perdido a pessoa que fazia cafuné, que desfilava pela rua, pelos eventos, que sustentava as vontades e realizava os desejos. Que humilhava, rejeitava e desprezava, mas não contava com o potencial que nós tínhamos.
Nós? Quem somos nós?
Somos um casal apaixonado um pelo outro. Que muitas vezes atravessa seus dias entre tapas e beijos. Mais beijos do que tapas. Mas que à noite, quando se encontra na cama, entre as quatro paredes do quarto, despeja toda a intensidade do amor vivido, por tantos anos retraído, contido, mas que, apesar da idade, mantém o vigor da juventude. E que sempre quer mais...e mais...e mais. Assim somos nós.
Quem são vocês?
Espero que nossos amigos. Espero que sejam testemunhas do amor existente entre duas pessoas que vem lutando contra tudo e contra todos para ter o direito de viver juntas. Espero que sejam baluartes no apoio a este amor, a esta nova vida que começou quando já caminhamos para o fim. Afinal, acho que já ultrapassei a metade do tempo que me foi destinado nesta passagem pelo planeta Terra. Então, preciso viver intensamente este amor que aflorou em meu coração.
Quem são eles?
Ah, deixa prá lá!
Sozinho na multidão
Paulo Pontes
Pois é. Jà ouvi alguém dizer uma vez que estava sozinho na multidão. Virou até música da época da Jovem Guarda, dos Golden Boys, algo semelhante. Pois é assim que tenho me sentido ultimamente. E não é por não ter família, ou amigos, ou seja o que for. Ao contrário, tenho tudo. Mas ainda assim estou sozinho.
Hoje foi exemplo disso. Aliás vem de ontem, ou de anteontem. Quem sabe da semana passada. Me deixou levar pela música. Ela é minha grande companheira, aquela que ocupa o espaço quando estou sozinho. E Rick Wakeman, desculpem os quem não o conhecem (que pena!), é um artista que consegue me fazer viajar através da imaginação a lugares nunca antes visitados. Que talvez nem existam.
Pois eu tenho 49 CDs - repito: 49 cds - do Rick Wakeman. É um rock clássico, música erudita, um pouco de new age, enfim, só quem conhece sabe o que é. E hoje me peguei a ouví-lo o dia inteiro. E fui me afastando, me afastando, me isolando, e terminei o dia sozinho.
Ops! Sozinho, não! Ouvindo Rick Wakeman,o Mago dos teclados.
Mais do que viajar em pensamentos, comecei a refletir sobre a vida, sobre as coisas, o futuro que me aguarda. Futuro não se prevê, mas se projeta.
Deitado numa banheira de hidromassagem comecei a indagar se tudo está bem comigo. Se está, por que estou me sentindo tão sozinho? E não consegui encontrar uma resposta.
Durante a semana a Redação está cheia. As pessoas estão a minha volta, eu converso com todos, brinco com todos, mas de repente estou isolado num estúdio com um operador a minha frente e só. Ah! tem os locutores. Mas cumprem o papel de lerem o noticiário e se vão.
Os amigos são muitos, mas sei que por perto de mim rondam aqueles que dão os famosos tapinhas nas coisas, mas no bolso guardam o punhal que tentarão usar uma hora.
No clube o isolamento é maior ainda. Também, quem mandou eu escolher o tal do tênis como esporte para praticar. Aí não tem jeito: sou eu de um lado e meu adversário de outro. Há algum tempo golpeava as bolas com raiva, quando estava irado. Sem que meu oponente soubesse, ilustrava nele alguém que eu não gostasse e fazia da vitória uma questão de honra. Hoje bato forte na bolinha para extravasar o stress, o mesmo stress que me levou a ser rotulado como um hipertenso leve.
Vejam só como viajei. Fui buscar elementos que me foram verdadeiros há quase dez anos. Talvez um pouco menos. Mas que não são tão diferentes agora. Mudam os personagens, mas a teoria permanece.
Só que eu estou em casa, em pleno sabadão, deitado numa hidromassagem, ouvindo Rick Wakeman. E só. Absolutamente só. A banheira ficou grande demais. A música está muito alta. A água esquentando e o calor subindo. Mas eu estou só. Assim como me senti durante todo o dia. Assim como tenho me sentido nesses últimos dias.
A casa estava cheia, movimentada. Pessoas entravam e saíam. Lá fora chovia torrencialmente. Pensei naquelas pessoas que não estão sozinhas, mas que estão sendo castigadas pela tempestade e certamente terão que deixar suas casas, pois moram perto de córregos e riachos.
Chega! Não quero mais ficar aqui. Vou tomar banho e sair. Vou para o escritório ver o site e fazer alguma coisa. Por exemplo, escrever esta crônica. E vou descer, assistir televisão. Quem sabe tomar uma cerveja. Faz bem para meu rim, grande produtor universal de pedras não tão preciosas.
Vou tentar rir um pouco. Lembrar do José Simão, da Folha, que escreveu que o Lula, quando disse que o Fidel Castro estava com saúde impecável, ou não sabia o siginficado da palavra impecável ou não sabia o que era saúde.
Mas eu continuo sozinho. As pessoas estão aqui e perto de mim. Minha mulher, por exemplo. Mas eu estou sozinho. Absolutamente sozinho.
Êpa! Meu perispírito! Cadê você? Volte aqui!!!
Ano novo, vida nova?
Paulo Pontes
A frase está embutida em todos nós: “ano novo, vida nova”. Mas será mesmo? Se é, tem alguma coisa errada que precisa ser mudada.
Eu sei perfeitamente que nesta época do ano a idéia é espalhar otimismo, desejos de paz, luz, sucesso, realizações, amor...É a mesmice. Não vou, garanto, ser pessimista nesta crônica de fim/início de ano para não levar desesperança aos meus amigos leitores.
Só que eu estava aqui sentado, vendo, lendo e ouvindo retrospectivas e parei para pensar: como tudo isso vai mudar?
Na Faixa de Gaza militantes do Hamas e judeus mantém ataques constantes e os números de mortos aumentam a cada dia. Essa situação se espalha por todo o Oriente Médio.No Irã, a cada dia, são dezenas de mortos por atentatos suicidas, tudo em nome de um Maomé que, certamente, não é o Deus que eu conheço e em quem confio.
Nos estertores do ano Benazir Bottho, lider oposicionista paquistanesa, é morta brutalmente por um suicida e morre logo após deixar um comício, ela que liderava as pesquisas e deveria ser eleita nova primeira-ministra do Paquistão em janeiro. No mesmo dia eram realizadas as eleições no Quênia. Tão logo terminaram, começaram as manifestações e o terror se espalhou pelo País. São mais de 250 mortos, sendo que 50 estavam dentro de um templo religioso fazendo orações.
As Coréias acenam com um pequeno gesto de paz, ao autorizarem a passagem do trem de um País para o outro. Mas os dois governos continuam construindo suas bombas nucleares.
E no Brasil?
O Brasil tem o Rio de Janeiro. Tem os morros e os traficantes. Tem cerco a turista nos túneis, arrastões nas praias, assaltos e mortes.
O Brasil também tem São Paulo. Quem tem sossego na praia nesta época do ano? O cidadão leva mais de oito horas para fazer uma viagem de 80 quilômetros. Encontra filas desumanas para comprar um simples pãozinho. Disputa com milhares de pessoas o espaço para colocar ao menos o pé na areia, já que tentar abrir um guarda-sol e sentar numa cadeira chega a ser um sacrilégio. Sofre com a falta d'água, com o calor e acaba invariavelmente assaltado, podendo até ser morto por uma bala perdida.
Não meus amigos, não se trata de pessimismo nem de estar mal-humorado só porque eu fiz plantão no fim de ano, entrando todos os dias as 6 horas da matina para apresentar um jornal que, acho, só minha mulher e meu pai ouviram, e saindo as 6 da tarde. Não transportei este stress para esta crônica, que é um retrato da vida de hoje. Nem dormi com o bumbum descoberto esta noite(aliás, dormi com tudo descoberto porque o calor está para assustar até nordestino).
O que existe é que não consigo ver no horizonte motivos que me façam pensar que tudo vai mudar. As guerras vão continuar existindo, a inveja, a avareza, a maledicência e a falsidade vão continuar predominando sobre o amor, a humildade, e belevolência e a lealdade. E o mundo vai continuar exatamente como está.
Talvez eu e você, que está lendo esta crônica, possamos fazer algo um pouco melhor. É um bom início. Pelo menos vamos estar fora deste ciclo criado pela própria humanidade.
Então, vamos tentar? Sendo assim, se estiver de acordo, Feliz Ano Novo para você e que 2008 seja de muita luz, muita paz e amor. E que seja, sim, ano novo, vida nova.
Natal é luz
Paulo Pontes
Chegou o Natal, data maior da cristandade, momento de nos confraternizarmos e lembrarmos que o Cristo nasceu. Dia de trocar presentes, comer muitas guloseimas, beber, beber e beber. A champagne, o vinho, a cerveja. O pernil, o lombo, o peru, a maionese, o Papai Noel e os presentes. E quantos presentes.
Seria simplório demais tratarmos assim o Natal. A reunião das famílias para passarem a meia-noite juntas e o dadivoso desejo de Feliz Natal. Que palavras fáceis e tão largamente faladas, nem sempre com o coração.
O Natal, na realidade, é muito mais do que isso. É o momento de reflexão que Deus colocou à nossa frente para observarmos nosso interior e questionarmos a nós mesmos: estamos agindo certo? Ou melhor, como algo absolutamente pessoal, estou agindo certo? A reforma íntima que me dispus a fazer está sendo corretamente executada? Não há pontos escuros que tornam minha aura lúgubre, pesada para os que comigo convivem?
Jesus, nosso Mestre sobre todas as coisas do Universo, se apresenta em nossa casa para nos lembrar destas coisas. Se passamos um ano correndo, sem tempo para pensar, sem tempo para rezar, sem tempo, sequer, para olhar nossos filhos, temos neste dia a grande oportunidade de tirarmos alguns minutos, que sejam, para fazer esta reflexão.
Só que ela tem que ser feita com muita confiança, fé e vontade de obter as respostas corretas. De nada adiantaria nos enchermos de pudores ou qualquer tipo de preconceito, pois não encontraríamos as respostas procuradas. Tudo ficaria obscuro pois a voz a ser ouvida seria uma qualquer, que não a do coração. Que não a da verdade. Que não a que deve ser ouvida a seguida.
Meus amigos, Natal é sinônimo de amor, de paz, de luz. Natal é o dia que nós, aqui na Terra, comemoramos o nascimento de Jesus. E esquecemos, ao mesmo tempo, que é em nome Dele que estamos aqui. Foi Ele quem veio nos salvar. Foi Ele quem entregou sua vida para salvar uma humanidade inteira. E é por Ele que estamos aqui construindo nosso caminho. Cumprimos uma missão que Ele nos confiou e não podemos decepcioná-Lo.
Vivemos momentos delicados no mundo inteiro. O desequilíbrio vibratório está abalando estruturas, desmantelando famílias. O ódio, o rancor, a mágoa, a sede de vingança estão imperando sobre o amor, o perdão, a compreensão e a benevolência. A mudança deste quadro depende de nós, só de nós. Fomos nós quem fizemos tudo ficar assim, caberá a nós repor as pedras em seus devidos lugares.
O tempo passa muito depressa e não podemos nos atrasar. O trem tem hora para passar e nele temos que nos encaixar. Vamos fazer o nosso tempo, não deixar a hora voar. Vamos resgatar os bons costumes, a boa convivência e elevar o pensamento em Deus. Não há vida em nenhum lugar do Universo sem a crença em Deus. Nossa fé tem que estar implantada em nossa mente e em nosso coração.
Que neste Natal vocês abram a janela do coração para receber a Luz de Jesus, a Luz divina, aquela que ilumina nosso caminho e nos conduz para a eternidade. Uma eternidade que é composta de muitas encarnações, mas que não permite o estacionamento.
Atentem para estas palavras. Podem parecer ilusionistas ou, quem sabe, sem lógica. Mas nelas está contido o sentido da vida. Nelas está contida a vontade de Deus. Nelas está o coração de Jesus.
Que todos vocês tenham um Natal cheio de luz, de paz e amor. Que todos tirem um tempinho para fazer a grande reflexão da vida e que Deus esteja com todos.
Dia feio
Paulo Pontes
O dia está tão feio. E não era para ser assim, afinal hoje é ufa!! Sexta-feira. Hoje é véspera de sábado à noite. Talvez vocês estejam lendo esta crônica no próprio sábado. Ou no domingo. Ou até na segunda-feira, o pior dia da semana.
Só que eu estou escrevendo numa sexta-feira (ufa!!) e tentando passar meu sentimento hoje. São 11h28, ou seja, falta ainda meio dia para eu cumprir minha missão aqui na rádio.
Dizia que o dia está feio. E está. É só olhar pela janela, como estou fazendo agora, para ver o céu cinzento, chuviscando. É um dia horrível para uma sexta-feira.
Dou uma olhadinha lá embaixo, na Paulista, e vejo um trânsito infernal. Afinal, hoje é sexta-feira (ufa!!) e o Natal está chegando. Juntando as duas coisas, o resultado não poderia ser outro.
Pelas calçadas pouca gente. Aliás, bem aqui em frente tem um shopping pequeno, é verdade, mas que demonstra bem o ânimo do paulistano para este Natal: ele está vazio. Assim como vazios estão outros shoppings da cidade. Parece que o povo ainda não vestiu a roupa de Papai Noel.
Estranha incoerência esta de desânimo. As pesquisas que foram divulgadas esta semana mostram crescimento na popularidade do presidente Lula, apontam que a população está confiante no País, ao menos em sua maioria, e que o salário médio do brasileiro continua subindo, assim como o desemprego diminuiu.
Eu também estou assim. Estou vendo o tempo lá fora e por dentro tem alguma coisa estranha. Talvez a sexta-feira (ufa!!)com um céu tão carrancudo assim, sem o azul celeste e o sol que lembra minha amada mulher, me faça mal e me deixe deprê. Deprê? Isso é coisa de boiola, baitola, seja lá o que for. Vamos dizer que eu estou um pouco prá baixo. Talvez as dívidas infindáveis sejam responsáveis por este estado de espírito.
Outras coisas também me deixam para baixo, mesmo sendo hoje uma sexta-feira (ufa!!). Estou vendo, por exemplo, um discurso do senador Mão Santa (PMDB-PI). Não bastasse ser ele ridículo por si só, tem a capacidade de falar que esta legislatura do Senado é a melhor que já houve em toda a existência da Casa. Que errar todos erram. Que se até Jesus não conseguiu união entre 13 discípulos, como condenar alguém que tenha falhado no Senado? Beira o ridículo.
O que isso tem a ver com a sexta-feira (ufa!!), e temo feio e outras coisas mais? Não sei. Apenas estou escrevendo o que me vem na mente. E certamente não está vindo uma estória fechada, pronta. Está aflorando o sentimento do momento, ainda que num embaralhado de emoções e contos.
Entretanto, amigos, a política tem me dado nojo. Em todos os níveis: no Federal, no Estadual e no Municipal. A cada dia uma história nova. A cada dia um podre novo. A tentativa que certos presidentes, governadores e prefeitos têm feito para se perpetuar no poder, não medindo conseqüências para seus atos, tem me atormentado. A política está podre. Os políticos, guardadas raríssimas e honrosas exceções, são podres.
Mas hoje é sexta-feira (ufa!!), dia internacional da cerveja. E do whisky. Estou aqui contando as horas para chegar em casa e deliciar estas duas bebidas, saboreando os salgadinhos tradicionais e aqueles especiais que minha musa prepara para mim.
Ah! pensar na minha musa, minha rainha, melhora meu humor. Afinal, ela me dá apoio, carinho, ouvidos, ombro, mãos...Ele é ela, só ela, apenas ela, ninguém mais do que ela. Ela é Helo. E aí dá aquela sensação gostosa de saber que hoje é ufa!! Sexta-feira. Apesar deste dia cinzento, o happy houer está programado. E quando ele chegar, os problemas da redação vão desaparecer. A gerente do banco não vai me ligar. E os credores terão que esperar chegar a segunda-feira, o pior dia da semana.
Êta diazinho torto. Mas vai endireitar. Tá ficando um vazio. Mas será preenchido. O Natal está chegando. O ano novo também. Quem sabe ares diferentes soprem na era que virá. Quem sabe!!!
Conversa entre pai e filho
Paulo Pontes
Meus amigos, principalmente corinthianos que costumam ler as crônicas que escrevo. Sou daqueles que prefere perder o amigo do que a piada. E não pararam de chegar e-mails com as mais diversas brincadeiras em cima do rebaixamento do Corinthians. Abaixo vou transcrever um que julguei brilhante, que me fez dar muita risada e vocês, ainda que corinthianos, também vão rir, tenho certeza, ao ver a veracidade de todos os fatos.
Vamos ao diálogo entre pai e filho:
FILHO: Pai, por que o senhor sempre fala que eu tenho que ser Corintiano?
PAI: Porque o Corinthians é o melhor time do mundo filho. É o Timão!
FILHO: Mas o Corinthians não foi rebaixado para a segunda divisão? E o
apelido Timão não é porque no símbolo do Corinthians tem um timão de navio?
PAI: Bem, é verdade. Mas nós só fomos rebaixados por causa de uma parceria com um fundo de investimentos chamado MSI que desgraçou o Corinthians.
FILHO: Mas não foi essa MSI que comprou o Tevez, o STJD e o Márcio Rezende de Freitas para garantir o título nacional de 2005 que na verdade foi conquistado pelo Internacional?
PAI: Foi, mas depois....AH, isso não importa filho. Nós somos a maior
torcida de São Paulo e a segunda maior do Brasil.
FILHO: Isso é legal né pai!? Mas a Índia e a China são os países mais
populosos do mundo e nunca ganharam uma Copa e a Itália, que é um país
pequeno e com menos torcida, já tem quatro mundiais não é!?
PAI: É filho, tá certo porra!!!
FILHO: Calma pai, o senhor está bravo só porque o Corinthians não é nada
disso que o senhor pensava?
PAI: Pára com isso filho! Nós já fomos campeões mundiais!!!
FILHO: Sério Pai!? Quando?
PAI: Em 2000.
FILHO: Que legal, então nós também ganhamos a Libertadores em 99?
PAI: Não, na verdade quem ganhou a Libertadores em 99 foi o Palmeiras. Você não sabe que nós NUNCA ganhamos uma Libertadores em mais de 90 anos de história!?
FILHO: Ué, então porque o Corinthians jogou esse mundial em 2000?
PAI: Ah! É que fomos convidados para jogar porque ganhamos o Brasileirão em 98 e tínhamos o apoio de um grupo de investidores estrangeiros que precisava colocar o Corinthians lá. O Vasco ganhou a Libertadores de 98 e também foi chamado.
FILHO: Entendi. Então na Europa chamaram o campeão da Liga dos Campeões da UEFA de 98?
PAI: Sim, mas também chamaram o Manchester, que venceu a Liga em 99.
FILHO: Então por que não chamaram o Palmeiras? Porque o campeão
Sul-americano de 99 não foi e o Corinthians que nunca passou de uma semi de Libertadores foi?
PAI: Não sei filho, mas que merda!!!!
FILHO: Então esse torneio não foi sério. Não teve critério para as escolhas
dos clubes! Mas o Corinthians ganhou do Manchester e do Real Madrid né pai?
PAI: Não. Na verdade ganhamos do perigoso Raja Casablanca com um gol
roubado em que a bola não entrou, empatamos com o Real Madrid, no Morumbi, graças ao Anelka que perdeu um pênalti e depois "goleamos" o poderoso Al Nasser por dois a zero.
FILHO: E na final ganhamos de quem?
PAI: Na verdade não ganhamos. Empatamos com o Vasco por zero a zero no Maracanã e o "título" veio nos pênaltis.
FILHO: Quem foi o herói Corintiano que fez o gol do título?
PAI: Ninguém. Na verdade o Edmundo chutou pra fora e nós ganhamos.
FILHO: Mas esse ano comemoramos 30 anos do título de 77. Que campeonato foi esse tão importante?
PAI: Foi o Campeonato Paulista. Saímos de uma fila de 22 anos sem título
com gol de Basílio contra a "fantástica Ponte Preta".
FILHO: Ah, sei. Mas não foi nesse jogo que o Rui Rei, artilheiro da Ponte,
se vendeu e foi expulso logo no começo do jogo só pra não fazer gols e assim ajudar o Corinthians?
PAI: Foi seu filho da puta, mas e daí!?
FILHO: Mas pai. Esse ano o São Paulo completou 30 anos do primeiro título
Brasileiro que conquistou e ao invés de festa e camiseta comemorativa,
ganhou mais um e agora eles são Penta.
PAI: Dane-se filho! Eles são Bambis!!!!
FILHO: São Pai? Mas eles me dizem que são Penta Brasileiro, Tri da
Libertadores e Tri Mundial. É verdade?
PAI: É verdade filho! (de cabeça baixa)
FILHO: É verdade também que se não fosse um tal de Grafite, atacante do São Paulo, nós teríamos sido rebaixados também no Paulistão?
PAI: Você não quer falar de Fórmula 1!?
FILHO: Tá bom pai. Mas o Rubinho não é Corintiano?
PAI: Puta que pariu moleque! É, saco!
FILHO: Vixe pai!!! O Rubinho é corintiano e o melhor piloto Brasileiro da
atualidade, o Felipe Massa, é são paulino. Vamos falar de futebol mesmo vai.
PAI: Calma lá!!! Mas o Senna era corintiano filhão!!
FILHO: Eu sei pai. Já me falaram isso. E me contaram que como corintiano
ele não agüentou. Em 93 viu o São Paulo conquistar o Bi Mundial e o
Palmeiras sair da fila em cima do Corinthians, aí percebeu que não adiantava torcer pra esse time e enfiou o carro no muro.
PAI: (APENAS SUSPIRA)
FILHO: Calma paizinho. Vamos passear, me leva no estádio do Corinthians.
PAI: (chorando) Não temos estádio porra! Temos uma chácara que apelidamos de fazendinha e que é menor do que qualquer ginásio da NBA.
FILHO: (revoltado) Chega pai! Assim não dá. Não temos estádio, não temos
time, nosso título mais comemorado é um paulistão roubado, o nosso quarto título brasileiro foi mais roubado ainda, somos o único clube grande (GRANDE????) do Estado de São Paulo que não tem Libertadores, a nossa torcida é a segunda do país e de nada adiantou, torcida do São Caetano é mil vezes menor e já viu o time numa final de Libertadores, nosso título mundial é uma fraude, o maior ídolo da nossa torcida no século XXI é argentino e nós estamos na segunda divisão, e você ainda quer que eu seja Corintiano. Você é um fanfarrão pai!!!!!
PAI: ( um minuto de silêncio)
FILHO: Mãe pode ficar tranqüila, se o pai sabe de tudo isso e ainda torce
pro Corinthians é porque ele gosta de ser enganado e nem desconfia que eu sou filho do vizinho.
Quer mais???
Mulher e futebol
Paulo Pontes
A cada dia que passa a discussão desta relação sem qualquer identidade ganha novas proporções. Chego a pensar que ambos concorrem de maneira direta, mesmo que em alguns casos venham a ser coincidentes. Mas o fato é que, para mim pelo menos, mulher e futebol estão intimamente ligados e eu não consigo viver sem eles.
O que vou fazer aqui é tentar narrar três casos no relacionamento nós, maridos, elas, mulheres e ele, o futebol. São os três pontos – dois extremos e um meio – que podem existir nessa calorosa relação.
Adalberto, um amigo meu, é são-paulino. Talvez tão são-paulino quanto eu. Daqueles que não perdem um jogo do time, vai em todos que pode e vê a todos na televisão, quando não está no estádio. Adalberto não mede economias nem esforço para acompanhar o time em outras cidades, outros estados e, pasmem! outros países.
Sua esposa, Silvana, uma vez por ano o acompanha no jogo. De resto ele vai sozinho. Claro que ela fica fula da vida com as viagens, mas não o proibe de estar ao lado daquele que é o melhor e maior time do mundo, motivo de orgulho para nós, torcedores.
Recentemente Silvana resolveu dar um berro. Quando ele se preparava para marcar viagem para a Colômbia, para assistir ao jogo do São Paulo contra o Millonários na Copa Sul-Americana, um torneio sem o menor significado para nós, ela disse que a partir daquele dia passaria a gastar nos shoppings da cidade o mesmo valor que ele tivesse gasto para acompanhar o São Paulo.
É certo que ele não foi para a Colômbia, mas continuou seu ritmo aqui em São Paulo e está pagando as compras do shopping.
Eu, como todos sabem, não perco um jogo do São Paulo no Morumbi. No interior, quando estou em férias, arrisco alguns. Já fui ao México assistir a uma partida do São Paulo pela Libertadores da América. Mas minha mulher, mesmo não sendo uma grande admiradora do futebol – nem são-paulina -, faz questão de estar presente em todos os jogos comigo. Pode até reclamar ligeiramente, tentando me convencer a ficar em casa, debaixo do cobertor quando está frio, mas jogo no Morumbi é sagrado. Faz parte da minha vida e não dá para ceifá-lo assim, de uma hora para a outra.
Então não tem brigas. Estamos sempre juntos, empunhando a bandeira do São Paulo.
O problema agora está pegando com outra amiga minha, a Leila. E aqui vem o terceiro caso. Ela é são-paulina e seu marido, também meu amigo, palmeirense. Como bom torcedor ele reserva os dias da semana em que seu time joga para assistir, vibrar, torcer. E outros dias para ir ao cinema ou teatro com a mulher.
Pois não é que ela cismou de proibí-lo de assistir ao jogo do Palmeiras nestes dias. Já domingo passado disse que queria ir para o cinema, bem na hora do jogo. Ele mandou que ela fosse sozinha e ficou em seu apartamento assistindo ao jogo pela televisão. O Palmeiras perdeu e ele ainda teve que agüentar a maior gozação por parte dela.
Domingo agora é o último jogo do campeonato. O Palmeiras precisa ganhar para ir para a Libertadores. Ela, que já está sem falar com ele por causa do futebol, deu o ultimato:
- Quero ir para o cinema na sessão das 4. E você escolhe: ou eu ou o Palmeiras.
Ele está em dúvida, mas sei que já reservou seu ingresso no Palestra Itália. Ela é uma extremista da maldade.
Ontem fui almoçar com dois amigos meus, que não fazem parte desta história mas que são tão fanáticos quanto nós (um são-paulinoe outro corinthiano) e a conversa girou sobre este teme. E concluímos: como nós sofremos, como nós somos fanáticos. Passamos até mal em certas ocasiões.
Olhando tudo isso concluo que minha mulher é o exemplo que deve ser seguido. Entende a necessidade que o marido tem de estar no futebol e que o São Paulo é uma grande paixão que ele tem, um amor eterno.
Quanto ao almoço, a conclusão que ficou, ao analisar os casos, foi a seguinte: nunca peça, mulher, para seu marido escolher entre você e o time dele. Ele vai ficar com o futebol. O time é para sempre, pode até trazer algum desgosto em determinado momento do campeonato, mas é fiel, é eterno, não o trai. Já você, mulher...
Paulo Pontes
Sabe, eu estava aqui pensando, pensando e, então, me veio à mente aquela música do Chico Buarque de Holanda, muito antiga, mas que está sempre presente. Ela diz assim: “tem dias que a gente se sente, como quem partiu ou morreu...” É a música Roda Viva, com a qual Chico participou com brilhantismo, como sempre, de um Festival da Música Popular Brasileira da antiga TV Record. Que saudade!
Mas eu estou meio deste jeito. Não sei porquê, mas estou. E estava tão bem, tão ligado nas coisas, entretido em meu trabalho, fincado nos afazeres, fazendo contas daqui, contas dali, paga isso, atrasa aquilo, acerta o outro. Essa é a nossa vida, cheia de obstáculos, de atropelos, de correria e de contas a pagar.
Aí me vem um cara e fala da tautologia, porque eu usei aí em cima algumas delas. Mas acho que tautologia é quando se fala sair para fora, entrar para dentro, subir para cima ou descer para baixo. Tem mais algumas outras, mas muitas vezes a utilizamos para reforçar uma idéia.
Mas o que tem a ver a música do Chico Buarque com a tautologia? Nada. Nem sei porque entrei nesse assunto. Foi um tipo de desabafo. Como eu disse, tem dias... Isso sim, lembra a música do Chico.
Talvez outra música dele pudesse demonstrar melhor o sentimento. Lembram-se do Cotidiano? Todo dia ela faz tudo sempre igual, me sacode às 6 horas da manhã... É o cotidiano de quase todo o mundo. Só que o meu é às 5 horas, não às 6.
Entretanto, tem dias que a gente quer jogar tudo pra cima e mandar tudo pro inferno. E não precisa ter um preâmbulo, uma preliminar (olha a tautologia aí). Basta acontecer.
Você já se sentiu no fundo do poço, extremamente injustiçado? Então experimente fazer tudo honestamente, trabalhar direitinho, ser um profissional digno e exemplar, ser um chefe de família dedicado, que sabe cuidar de sua prole, e aí te chamam de desonesto e ladrão. Não com todas as palavras, mas deixando claro que é isso, já que para um bom entendedor meia palavra basta.
O mundo desaba em sua cabeça. E palavras são palavras. Êpa! Eu já lembrei de outra música, com Alain Dellon que fala “parole, parole, parole...”É, meus amigos, posso estar sendo chato com essa coisa de lembrar de músicas, mas que dói, isso dói. E, como escrevi, palavras são palavras. Depois que saem não voltam mais. Você pode – e deve – não guardar mágoa no seu coração, não nutrir ódio ou rancor, mas que fica uma ferida, isso fica. Você pode ser espírita – e eu sou -, mas a ferida fica. Para sempre você vai lembrar que um dia alguém te chamou de desonesto, sem a mais remota razão.
Você começa a remoer seu pensamento. Dói o estômago, dá vontade de ir ao banheiro, o rim avisa que está aí, o coração bate mais forte, a pressão sobe, o stress é total. Não há nada que machuque mais do que uma injustiça. Não há nada que mate um pouquinho do amor que você tem por uma pessoa do que uma acusação grave, sem qualquer tipo de argumento válido.
A auto-estima vai lá no chão. Sua alegria se transforma num rio de tristeza banhada em águas profundas.
Aí você começa a repensar sua vida, juntar os detalhes de vários acontecimentos e se pergunta: não estão buscando dar um ponto final e você, burro, não está entendendo?
Talvez sim. Talvez tenham conseguido. Juro que segurei para não lembrar o Roberto Carlos e cantar “e que tudo mais vá pro inferno”.
Mas tudo bem. Jesus Cristo foi o Rei e fizeram tudo aquilo com ele, por que eu, um pobre pecador mortal, não posso sofrer injustiças? E, pelo amor de Deus, longe, mas muito longe de mim querer fazer qualquer comparação com o nosso Mestre Jesus. Ele é o Rei dos reis, inigualável, inatingível, o exemplo que nós, todos nós, não conseguimos seguir nem de longe.
É, meus amigos, tem dias em que é melhor parar de escrever e ir dormir. Talvez a dor doa menos. Desculpem mais uma tautologia.
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